14 de maio de 2011

RISO SOBRE A ERVA

Inspiramos lentamente,
e o ar brinca-nos no corpo
sem pressa de vir juntar-se ao ar
cá fora. Ensinaram-nos
a ruminar o vazio e por isso entramos
um no outro sem matéria, moldando
o barro solar com que nos criámos.
Temos os ouvidos cheios dos gritos
dos pregos a perfurarem o silêncio
das tuas mãos. Se não te salvas
da tua própria morte, ainda que sejas
também deus, se morres em nosso nome
e continuas a morrer de nós, só nos resta
celebrar a vida. Vem amor, tens um riso
calcado sobre a erva e o teu peso
atravessa-me o corpo: eterno sofredor
no chão de tamanha alegria.

Rosa Alice Branco

com a devida vénia, de GADO DO SENHOR, & etc, 2011

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