2 de maio de 2010

Na Biblioteca

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente
                                                               [tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas  em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

Manuel António Pina

com a devida vénia, de CUIDADOS INTENSIVOS, Edições Afrontamento, Porto, 1994

1 comentário:

  1. Caro Domingos,


    Muito bom! Grato por compartilhar!


    Abração,
    Adriano NUnes.

    u

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