8 de maio de 2010

RICOCHETE

Que margens têm os rios
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro de nós?

Que sereia é o poente,
metade não sei de quê
a pentear-se com o pente
do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
de estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
um corpo à alma que é?

Natália Correia

com a devida vénia, de AS MAÇÃS DE ORESTES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1970

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