14 de março de 2010

EM SUMA

Um a um foram saindo de cena
os companheiros. Partiam, com a tarde,
para fins empobrecidos,
na rota dos eleitos para filhos e despesas.
As noites faziam-se livrescas,
estendiam sobre mim o seu império
de silêncios e desfalques.

Entretanto, engrossava o meu diário
de rasuras, de cálculos moídos,
partilhado por verrinas e recados
sem resposta. Bebia o desalento
por canecas de latão, corria
as persianas. É muito pouca sorte.

Os versos, com o tempo, tornavam-se mais longos,
cresciam para trás, para fora
dos cadernos, ocupavam minha vida
tal a morte na semente de madeira.
Afeiçoava-me isso sim à solidão, cortava
o negativo dos afectos, protegido na cabeça
por um chapéu de feltro;
pois essas são as coisas e as coisas
que ontem nos pareciam boas
não existem.

José Miguel Silva

com a devida vénia, de VISTA PARA UM PÁTIO, seguido de DESORDEM, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Março de 2003

1 comentário:

  1. Caro Domingos,

    Muito grato por compartilhar esse belíssimo poema. Estou tonto de tanto ler e reler essa maravilha!



    Abração,
    Adriano Nunes.

    ResponderEliminar