5 de outubro de 2010

CAPELA DOS OSSOS

Junto à porta e ao sol excessivo
de Maio, um velado mendigo
informou-nos que tínhamos de virar
à direita. Depois, na capela, "uma voz"
nos conduziria. Ao vê-lo desdobrar
eloquentemente o boné, deixei cair
uma moeda com a efígie do rei de Espanha.

À direita, frágil negação da morte,
cresciam flores em desordem
e voltámos a pagar para ver
os ossos que nos esperam,
sobrepostos como os dias e as noites
que tão pouco vivemos.

A prometida "voz" não passava afinal
de uma gravação em várias línguas
para gáudio de turistas. E o fundo musical,
infelizmente, ficava demasiado aquém
de Zelenka, Charpentier ou Frei Manuel Cardoso.

Mas tudo preferimos ao silêncio, à certeza de que
os mortos nada têm a dizer aos mortos.

Manuel de Freitas

com a devida vénia, de A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, 2005

Sem comentários:

Enviar um comentário