03/09/2011

zero

em objetos
mãos procuram
contato - gavetas
anotações
cômodos apagados

confissões de inércia
espelho coberto
por cinzas

cada um 
tem o próprio silêncio

cadeira e mesa
duelo de mobílias

...


tocar distância
elidida pelas épocas

Danilo Bueno

com a devida vénia, de POESIA BRASILEIRA DO INÍCIO DO TERCEIRO MILÉNIO dezoito poetas da novíssima geração (selecção e organização de Claudio Daniel), 7 Dias e 6 Noites - Editores Unipessoal, Lda., Fevereiro de 2008








11/08/2011

[Ambiciono o relâmpago nu.]

2.


Ambiciono o relâmpago nu.
Só o silêncio acorda a sílaba
e a desperta para a pestilência.

João Rasteiro

com a devida vénia, de A DIVINA PESTILÊNCIA, Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2011







07/08/2011

[E me disseste: vem. E havia]

E me disseste: vem. E havia
alguns despojos sobre a areia, algumas
ressentidas grinaldas
no limiar das têmporas. Havia
alguns gestos suspensos, um cofre
de esmeraldas vermelhas, um torpor
nos membros retardados. E havia
um colar para as mãos, uma colina
para os lábios e uma flor
intacta perfumando
o silêncio, à beira
de indizíveis planícies.

Albano Martins

com a devida vénia, de TRÊS POEMAS DE AMOR SEGUIDOS DE LIVRO QUARTO, edições Quasi, Fevereiro de 2004

03/08/2011

O FILHO PRÓDIGO

Ao balcão do Danúbio azul
Bebo o café quente da manhã

Chegam peregrinos
Por caminhos e ruas, em mau silêncio

Na televisão, homens doutras eras
Falam de organismos especializados
De sacrifícios e responsabilidade

Nunca cantaria uma cidade
As ruas as pessoas todas as ladainhas
Nem as serras e os montes
Talvez um cão

João Almeida

com a devida vénia, de Telhados de Vidro, N.º 15 . Junho . 2011


20/07/2011

OS PADRES DO DESERTO

Os monges do deserto, esses que chegam da vigília do silên-
cio, diante de um cesto, escolhem os frutos mais apodrecidos.
Gestos assim podem parecer-nos insignificantes, até indife-
rentes, mas, na realidade, revelam aqueles que os cumprem.
Os santos sentem-se indignos de receber e preferem reservar,
aos outros, o melhor. Para eles, somente a visão perfumada
dos pomares.

Mário Rui de Oliveira

com a devida vénia, de O VENTO DA NOITE, Assírio & Alvim, Março de 2002

17/07/2011

SONETO INGLÊS

Como o silêncio do punhal num peito,
O silêncio do sangue a converter
Em fio breve o coração desfeito
Que nas pedras acaba de morrer,

Vive em mim o teu nome,  tão perfeito
Que mais ninguém o pode conhecer!
É a morte que vivo e não aceito;
É a vida que espero não perder.

Viver a vida e não viver a morte;
Procurar noutros olhos a medida,
Vencer o tempo, dominar a sorte,
Atraiçoar a morte com a vida!

Depois morrer de coração aberto
E no sangue o teu nome já liberto...

Alexandre O'Neill

com a devida vénia, de POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio de 2007

06/07/2011

QUEM SE EU GRITAR...?

Fecho-me aqui:
um blog é uma estratosfera,
é uma maneira de não pertencer a nenhum mundo,
é uma forma mais de estar sozinho.

É certo que é suposto partilhar:
mas é como se uma mónada do Leibniz
lançasse palavras numa rede de ausências,
para o silêncio das esferas.

Nunca adiamos a solidão!

Luís Filipe Castro Mendes

com a devida vénia, de Lendas da Índia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2011