20/07/2011

OS PADRES DO DESERTO

Os monges do deserto, esses que chegam da vigília do silên-
cio, diante de um cesto, escolhem os frutos mais apodrecidos.
Gestos assim podem parecer-nos insignificantes, até indife-
rentes, mas, na realidade, revelam aqueles que os cumprem.
Os santos sentem-se indignos de receber e preferem reservar,
aos outros, o melhor. Para eles, somente a visão perfumada
dos pomares.

Mário Rui de Oliveira

com a devida vénia, de O VENTO DA NOITE, Assírio & Alvim, Março de 2002

17/07/2011

SONETO INGLÊS

Como o silêncio do punhal num peito,
O silêncio do sangue a converter
Em fio breve o coração desfeito
Que nas pedras acaba de morrer,

Vive em mim o teu nome,  tão perfeito
Que mais ninguém o pode conhecer!
É a morte que vivo e não aceito;
É a vida que espero não perder.

Viver a vida e não viver a morte;
Procurar noutros olhos a medida,
Vencer o tempo, dominar a sorte,
Atraiçoar a morte com a vida!

Depois morrer de coração aberto
E no sangue o teu nome já liberto...

Alexandre O'Neill

com a devida vénia, de POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio de 2007

06/07/2011

QUEM SE EU GRITAR...?

Fecho-me aqui:
um blog é uma estratosfera,
é uma maneira de não pertencer a nenhum mundo,
é uma forma mais de estar sozinho.

É certo que é suposto partilhar:
mas é como se uma mónada do Leibniz
lançasse palavras numa rede de ausências,
para o silêncio das esferas.

Nunca adiamos a solidão!

Luís Filipe Castro Mendes

com a devida vénia, de Lendas da Índia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2011

02/07/2011

MAIS TRISTES DO QUE OS SEUS MELHORES

Mais tristes do que os seus melhores versos
são as tardes estéreis do poeta
em que despojado do acaso e da vaidade
(que chama talento ao acaso)
sabe que não encontrará esperança na metáfora
e, suicida,
procura afundar-se no silêncio.
Mas no silêncio flutua.

Mariano Peyrou

com a devida vénia, de O DISCURSO OPCIONAL OBRIGATÓRIO, Tradução de Manuel de Freitas, Prefácio de José Ángel Cilleruelo, Averno, Novembro de 2009

04/06/2011

METÁFORA

Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los
o silêncio o domingo será como
falar da escuridão e que metáfora
mais certa se as há certas, para a ínfima
luz própria metafórica do dia

A tua voz então vem como nave
a si mesma sulcar-se, na penumbra
tornando-se, não sei se mais igual
ou mais diversa do escuro sentido
do sentido, o tema interrompendo
do poema: o silêncio o domingo

Gastão Cruz

com a devida vénia, de Tudo menos Palavras, Edição P.E.N. Clube Português / Colibri, Lisboa, Outubro de 2008

14/05/2011

RISO SOBRE A ERVA

Inspiramos lentamente,
e o ar brinca-nos no corpo
sem pressa de vir juntar-se ao ar
cá fora. Ensinaram-nos
a ruminar o vazio e por isso entramos
um no outro sem matéria, moldando
o barro solar com que nos criámos.
Temos os ouvidos cheios dos gritos
dos pregos a perfurarem o silêncio
das tuas mãos. Se não te salvas
da tua própria morte, ainda que sejas
também deus, se morres em nosso nome
e continuas a morrer de nós, só nos resta
celebrar a vida. Vem amor, tens um riso
calcado sobre a erva e o teu peso
atravessa-me o corpo: eterno sofredor
no chão de tamanha alegria.

Rosa Alice Branco

com a devida vénia, de GADO DO SENHOR, & etc, 2011

27/04/2011

OS NÚMEROS DE PITÁGORAS

Amaste a proporção e calculaste
a harmonia do Oculto: reuniste
os deuses e os números, na arte
oblíqua que ensinaste. Assim a Pítia
ouviste e no silêncio te exilaste.

José Augusto Seabra

com a devida vénia, de Homenagem aos pré-socráticos (11 poemas), Edição Palavra em Mutação, 2004