Mais tristes do que os seus melhores versos
são as tardes estéreis do poeta
em que despojado do acaso e da vaidade
(que chama talento ao acaso)
sabe que não encontrará esperança na metáfora
e, suicida,
procura afundar-se no silêncio.
Mas no silêncio flutua.
Mariano Peyrou
com a devida vénia, de O DISCURSO OPCIONAL OBRIGATÓRIO, Tradução de Manuel de Freitas, Prefácio de José Ángel Cilleruelo, Averno, Novembro de 2009
02/07/2011
04/06/2011
METÁFORA
Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los
o silêncio o domingo será como
falar da escuridão e que metáfora
mais certa se as há certas, para a ínfima
luz própria metafórica do dia
A tua voz então vem como nave
a si mesma sulcar-se, na penumbra
tornando-se, não sei se mais igual
ou mais diversa do escuro sentido
do sentido, o tema interrompendo
do poema: o silêncio o domingo
Gastão Cruz
com a devida vénia, de Tudo menos Palavras, Edição P.E.N. Clube Português / Colibri, Lisboa, Outubro de 2008
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Gastão Cruz
14/05/2011
RISO SOBRE A ERVA
Inspiramos lentamente,
e o ar brinca-nos no corpo
sem pressa de vir juntar-se ao ar
cá fora. Ensinaram-nos
a ruminar o vazio e por isso entramos
um no outro sem matéria, moldando
o barro solar com que nos criámos.
Temos os ouvidos cheios dos gritos
dos pregos a perfurarem o silêncio
das tuas mãos. Se não te salvas
da tua própria morte, ainda que sejas
também deus, se morres em nosso nome
e continuas a morrer de nós, só nos resta
celebrar a vida. Vem amor, tens um riso
calcado sobre a erva e o teu peso
atravessa-me o corpo: eterno sofredor
no chão de tamanha alegria.
Rosa Alice Branco
com a devida vénia, de GADO DO SENHOR, & etc, 2011
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27/04/2011
OS NÚMEROS DE PITÁGORAS
Amaste a proporção e calculaste
a harmonia do Oculto: reuniste
os deuses e os números, na arte
oblíqua que ensinaste. Assim a Pítia
ouviste e no silêncio te exilaste.
José Augusto Seabra
com a devida vénia, de Homenagem aos pré-socráticos (11 poemas), Edição Palavra em Mutação, 2004
a harmonia do Oculto: reuniste
os deuses e os números, na arte
oblíqua que ensinaste. Assim a Pítia
ouviste e no silêncio te exilaste.
José Augusto Seabra
com a devida vénia, de Homenagem aos pré-socráticos (11 poemas), Edição Palavra em Mutação, 2004
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16/04/2011
POLIFEMOS
Foi então que vi dois cegos
à espera de um sinal.
Conquistados pelo joio,
não olhavam em redor.
Do mais novo pude ouvir:
"O silêncio de Deus
que se ouvia nos trigais,
ninguém sabe como foi."
Isolados pelo dardo
de Ninguém, duvidosos,
tropeçamos uns nos outros,
não damos com a porta.
José Miguel Silva
com a devida vénia, de ULISSES JÁ NÃO MORA AQUI, &etc, Março de 2002
à espera de um sinal.
Conquistados pelo joio,
não olhavam em redor.
Do mais novo pude ouvir:
"O silêncio de Deus
que se ouvia nos trigais,
ninguém sabe como foi."
Isolados pelo dardo
de Ninguém, duvidosos,
tropeçamos uns nos outros,
não damos com a porta.
José Miguel Silva
com a devida vénia, de ULISSES JÁ NÃO MORA AQUI, &etc, Março de 2002
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09/04/2011
simbiose
as palavras germinam música
a música depura o silêncio
o silêncio é um cristal
envolvendo a respiração do tempo
as palavras ardendo
evaporam o acre perfume
da raiz
a música subindo
faz explodir as corolas
do sublime
e o tempo dobra-se
como o último a saber
os signos do som
a ler toda a página
lavrada de sulcos e selos
seminais
Cláudio Lima
com a devida vénia, de ITINERÂNCIAS, Edição Opera Omnia, Guimarães, Outubro de 2010
a música depura o silêncio
o silêncio é um cristal
envolvendo a respiração do tempo
as palavras ardendo
evaporam o acre perfume
da raiz
a música subindo
faz explodir as corolas
do sublime
e o tempo dobra-se
como o último a saber
os signos do som
a ler toda a página
lavrada de sulcos e selos
seminais
Cláudio Lima
com a devida vénia, de ITINERÂNCIAS, Edição Opera Omnia, Guimarães, Outubro de 2010
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02/04/2011
[Mais incompreensível]
Mais incompreensível
Que a sombra
A luz diáfana
Ou penetrante
Que de onde em onde
O ser inteiro
Recebe
Essa luz nimba
De compaixão
A pergunta imensa
Ferida impossível
De jamais sarar
Ao longe o silêncio
Que reverbera
Maravilhoso
Inatingível
Londres, 24 de Dezembro 1996
Alberto Lacerda
com a devida vénia, de O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS, Assírio & Alvim, Junho 2010
Que a sombra
A luz diáfana
Ou penetrante
Que de onde em onde
O ser inteiro
Recebe
Essa luz nimba
De compaixão
A pergunta imensa
Ferida impossível
De jamais sarar
Ao longe o silêncio
Que reverbera
Maravilhoso
Inatingível
Londres, 24 de Dezembro 1996
Alberto Lacerda
com a devida vénia, de O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS, Assírio & Alvim, Junho 2010
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