04/06/2011

METÁFORA

Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los
o silêncio o domingo será como
falar da escuridão e que metáfora
mais certa se as há certas, para a ínfima
luz própria metafórica do dia

A tua voz então vem como nave
a si mesma sulcar-se, na penumbra
tornando-se, não sei se mais igual
ou mais diversa do escuro sentido
do sentido, o tema interrompendo
do poema: o silêncio o domingo

Gastão Cruz

com a devida vénia, de Tudo menos Palavras, Edição P.E.N. Clube Português / Colibri, Lisboa, Outubro de 2008

14/05/2011

RISO SOBRE A ERVA

Inspiramos lentamente,
e o ar brinca-nos no corpo
sem pressa de vir juntar-se ao ar
cá fora. Ensinaram-nos
a ruminar o vazio e por isso entramos
um no outro sem matéria, moldando
o barro solar com que nos criámos.
Temos os ouvidos cheios dos gritos
dos pregos a perfurarem o silêncio
das tuas mãos. Se não te salvas
da tua própria morte, ainda que sejas
também deus, se morres em nosso nome
e continuas a morrer de nós, só nos resta
celebrar a vida. Vem amor, tens um riso
calcado sobre a erva e o teu peso
atravessa-me o corpo: eterno sofredor
no chão de tamanha alegria.

Rosa Alice Branco

com a devida vénia, de GADO DO SENHOR, & etc, 2011

27/04/2011

OS NÚMEROS DE PITÁGORAS

Amaste a proporção e calculaste
a harmonia do Oculto: reuniste
os deuses e os números, na arte
oblíqua que ensinaste. Assim a Pítia
ouviste e no silêncio te exilaste.

José Augusto Seabra

com a devida vénia, de Homenagem aos pré-socráticos (11 poemas), Edição Palavra em Mutação, 2004

16/04/2011

POLIFEMOS

Foi então que vi dois cegos
à espera de um sinal.
Conquistados pelo joio,
não olhavam em redor.


Do mais novo pude ouvir:
"O silêncio de Deus
que se ouvia nos trigais,
ninguém sabe como foi."


Isolados pelo dardo
de Ninguém, duvidosos,
tropeçamos uns nos outros,
não damos com a porta.


José Miguel Silva


com a devida vénia, de ULISSES JÁ NÃO MORA AQUI, &etc, Março de 2002

09/04/2011

simbiose

as palavras germinam música
a música depura o silêncio

o silêncio é um cristal
envolvendo a respiração do tempo

as palavras ardendo
evaporam o acre perfume
da raiz

a música subindo
faz explodir as corolas
do sublime

e o tempo dobra-se
como o último a saber
os signos do som

a ler toda a página
lavrada de sulcos e selos
seminais

Cláudio Lima

com a devida vénia, de ITINERÂNCIAS, Edição Opera Omnia, Guimarães, Outubro de 2010

02/04/2011

[Mais incompreensível]

Mais incompreensível
Que a sombra
A luz diáfana
Ou penetrante
Que de onde em onde
O ser inteiro
Recebe

Essa luz nimba
De compaixão
A pergunta imensa
Ferida impossível
De jamais sarar

Ao longe o silêncio
Que reverbera
Maravilhoso
Inatingível

                                Londres, 24 de Dezembro 1996

Alberto Lacerda

com a devida vénia, de O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS, Assírio & Alvim, Junho 2010

26/03/2011

O SILÊNCIO E O GRITO

Uma parte de mim
grita
e a outra abusa do silêncio
e a que sabe das duas não distingue
uma
da outra.

Eduarda Chiote

com a devida vénia, de ÓRGÃOS EPISTOLARES, Edições Afrontamento, Porto, Novembro de 2010