09/04/2011

simbiose

as palavras germinam música
a música depura o silêncio

o silêncio é um cristal
envolvendo a respiração do tempo

as palavras ardendo
evaporam o acre perfume
da raiz

a música subindo
faz explodir as corolas
do sublime

e o tempo dobra-se
como o último a saber
os signos do som

a ler toda a página
lavrada de sulcos e selos
seminais

Cláudio Lima

com a devida vénia, de ITINERÂNCIAS, Edição Opera Omnia, Guimarães, Outubro de 2010

02/04/2011

[Mais incompreensível]

Mais incompreensível
Que a sombra
A luz diáfana
Ou penetrante
Que de onde em onde
O ser inteiro
Recebe

Essa luz nimba
De compaixão
A pergunta imensa
Ferida impossível
De jamais sarar

Ao longe o silêncio
Que reverbera
Maravilhoso
Inatingível

                                Londres, 24 de Dezembro 1996

Alberto Lacerda

com a devida vénia, de O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS, Assírio & Alvim, Junho 2010

26/03/2011

O SILÊNCIO E O GRITO

Uma parte de mim
grita
e a outra abusa do silêncio
e a que sabe das duas não distingue
uma
da outra.

Eduarda Chiote

com a devida vénia, de ÓRGÃOS EPISTOLARES, Edições Afrontamento, Porto, Novembro de 2010

13/03/2011

PATRIMÓNIO

Dir-te-ia do primeiro rio,
água escura do açude onde aprendi a nadar,
cheiro acre de sabugueiros
e o afago de ervas na pele,
deitada olhando
folhas secas e cobras de água levadas
pela corrente do verão, sonhando.

Dir-te-ia do rio,
mas a distância existe.
De quanto me acende os dias tão pouco posso contar.
E mingua
no silêncio com o tempo.

Soledade Santos

in Sob os teus pés a terra, Artefacto, Novembro, 2010.

com a devida vénia, de Agio 1, Revista de Literatura, Artefacto, Lisboa, Fevereiro de 2011

05/03/2011

32. ELE:

Sei que existes, e nisto se resume
o estar aqui, o persistir nessas tábuas inertes
que já não sei se é o palco da vida.
Sei que existes pessoa, de outro lado
de um lado que não sei;
                                             sei
que existes, talvez carne, ignotos olhos,
manso rio de um silente vulcão
amargurado.

Pedro Tamen

com a devida vénia, de Um Teatro às Escuras, Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2011

20/02/2011

Sem grinalda e sem regresso

A água que me dá sede
não refresca este jardim
é de esperança desesperada
diz mais vezes não que sim

Silêncio e metamorfose
juntam-se batem às portas
do futuro incandescente
neste jardim de horas mortas

À deriva flutuamos
os sonhos vimos ruir
mas na varanda da esperança
um coração vai abrir

Nova onda de igualdade
sem grinalda e sem regresso
cascata branca a sonhar
é o que ao destino peço

                                           2008

Urbano Tavares Rodrigues

com a devida vénia, de Horas de Vidro, Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011

31/01/2011

[Uma linguagem de súbito imperceptível]

Uma linguagem de súbito imperceptível:
o desenho de uma palavra persegue o tecido frágil da pele.
Inaugura o momento cúmplice.
O corpo respira, atinge o silêncio,
imóvel sob os dedos.

Fernando Esteves Pinto

com a devida vénia, de Área Afectada, Edição: Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010