13/03/2011

PATRIMÓNIO

Dir-te-ia do primeiro rio,
água escura do açude onde aprendi a nadar,
cheiro acre de sabugueiros
e o afago de ervas na pele,
deitada olhando
folhas secas e cobras de água levadas
pela corrente do verão, sonhando.

Dir-te-ia do rio,
mas a distância existe.
De quanto me acende os dias tão pouco posso contar.
E mingua
no silêncio com o tempo.

Soledade Santos

in Sob os teus pés a terra, Artefacto, Novembro, 2010.

com a devida vénia, de Agio 1, Revista de Literatura, Artefacto, Lisboa, Fevereiro de 2011

05/03/2011

32. ELE:

Sei que existes, e nisto se resume
o estar aqui, o persistir nessas tábuas inertes
que já não sei se é o palco da vida.
Sei que existes pessoa, de outro lado
de um lado que não sei;
                                             sei
que existes, talvez carne, ignotos olhos,
manso rio de um silente vulcão
amargurado.

Pedro Tamen

com a devida vénia, de Um Teatro às Escuras, Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2011

20/02/2011

Sem grinalda e sem regresso

A água que me dá sede
não refresca este jardim
é de esperança desesperada
diz mais vezes não que sim

Silêncio e metamorfose
juntam-se batem às portas
do futuro incandescente
neste jardim de horas mortas

À deriva flutuamos
os sonhos vimos ruir
mas na varanda da esperança
um coração vai abrir

Nova onda de igualdade
sem grinalda e sem regresso
cascata branca a sonhar
é o que ao destino peço

                                           2008

Urbano Tavares Rodrigues

com a devida vénia, de Horas de Vidro, Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011

31/01/2011

[Uma linguagem de súbito imperceptível]

Uma linguagem de súbito imperceptível:
o desenho de uma palavra persegue o tecido frágil da pele.
Inaugura o momento cúmplice.
O corpo respira, atinge o silêncio,
imóvel sob os dedos.

Fernando Esteves Pinto

com a devida vénia, de Área Afectada, Edição: Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

16/01/2011

AS AVES

(Ciclo Terceiro)

4.

O banco pertence-lhes, ali plantam
flores e constroem uma mesa com
jornais. Os pombos aproximam-se
agora dos seus rostos e das mãos,
numa ameaça que leva rapidamente
ao silêncio. Ninguém sabe que
morreram há quatro dias, nem que
os olhos deles se esvaziaram aos
poucos, sugados pelos corvos.

Jaime Rocha

com a devida vénia, de revista criatura, N.º 5 . OUTUBRO . 2010

10/01/2011

[eis que o silêncio]

eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio

eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro

oiço o diálogo da terra
com a terra

vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra

António Ramos Rosa

com a devida vénia, de PULSAÇÕES DA TERRA, in Círculo Aberto, Editorial Caminho, SARL, Lisboa, 1979

01/01/2011

Escuto

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Sophia de Mello Breyner Andresen

com a devida vénia, de CEM POEMAS DE SOPHIA, Selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Edição Visão / JL, Agosto de 2004