Sei que existes, e nisto se resume
o estar aqui, o persistir nessas tábuas inertes
que já não sei se é o palco da vida.
Sei que existes pessoa, de outro lado
de um lado que não sei;
sei
que existes, talvez carne, ignotos olhos,
manso rio de um silente vulcão
amargurado.
Pedro Tamen
com a devida vénia, de Um Teatro às Escuras, Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2011
05/03/2011
20/02/2011
Sem grinalda e sem regresso
A água que me dá sede
não refresca este jardim
é de esperança desesperada
diz mais vezes não que sim
Silêncio e metamorfose
juntam-se batem às portas
do futuro incandescente
neste jardim de horas mortas
À deriva flutuamos
os sonhos vimos ruir
mas na varanda da esperança
um coração vai abrir
Nova onda de igualdade
sem grinalda e sem regresso
cascata branca a sonhar
é o que ao destino peço
2008
Urbano Tavares Rodrigues
com a devida vénia, de Horas de Vidro, Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011
não refresca este jardim
é de esperança desesperada
diz mais vezes não que sim
Silêncio e metamorfose
juntam-se batem às portas
do futuro incandescente
neste jardim de horas mortas
À deriva flutuamos
os sonhos vimos ruir
mas na varanda da esperança
um coração vai abrir
Nova onda de igualdade
sem grinalda e sem regresso
cascata branca a sonhar
é o que ao destino peço
2008
Urbano Tavares Rodrigues
com a devida vénia, de Horas de Vidro, Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011
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31/01/2011
[Uma linguagem de súbito imperceptível]
Uma linguagem de súbito imperceptível:
o desenho de uma palavra persegue o tecido frágil da pele.
Inaugura o momento cúmplice.
O corpo respira, atinge o silêncio,
imóvel sob os dedos.
Fernando Esteves Pinto
com a devida vénia, de Área Afectada, Edição: Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
o desenho de uma palavra persegue o tecido frágil da pele.
Inaugura o momento cúmplice.
O corpo respira, atinge o silêncio,
imóvel sob os dedos.
Fernando Esteves Pinto
com a devida vénia, de Área Afectada, Edição: Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
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16/01/2011
AS AVES
(Ciclo Terceiro)
4.
O banco pertence-lhes, ali plantam
flores e constroem uma mesa com
jornais. Os pombos aproximam-se
agora dos seus rostos e das mãos,
numa ameaça que leva rapidamente
ao silêncio. Ninguém sabe que
morreram há quatro dias, nem que
os olhos deles se esvaziaram aos
poucos, sugados pelos corvos.
Jaime Rocha
com a devida vénia, de revista criatura, N.º 5 . OUTUBRO . 2010
4.
O banco pertence-lhes, ali plantam
flores e constroem uma mesa com
jornais. Os pombos aproximam-se
agora dos seus rostos e das mãos,
numa ameaça que leva rapidamente
ao silêncio. Ninguém sabe que
morreram há quatro dias, nem que
os olhos deles se esvaziaram aos
poucos, sugados pelos corvos.
Jaime Rocha
com a devida vénia, de revista criatura, N.º 5 . OUTUBRO . 2010
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Jaime Rocha
10/01/2011
[eis que o silêncio]
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
António Ramos Rosa
com a devida vénia, de PULSAÇÕES DA TERRA, in Círculo Aberto, Editorial Caminho, SARL, Lisboa, 1979
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
António Ramos Rosa
com a devida vénia, de PULSAÇÕES DA TERRA, in Círculo Aberto, Editorial Caminho, SARL, Lisboa, 1979
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01/01/2011
Escuto
Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
Sophia de Mello Breyner Andresen
com a devida vénia, de CEM POEMAS DE SOPHIA, Selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Edição Visão / JL, Agosto de 2004
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
Sophia de Mello Breyner Andresen
com a devida vénia, de CEM POEMAS DE SOPHIA, Selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Edição Visão / JL, Agosto de 2004
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24/12/2010
Octavio Paz - "SILÊNCIO"
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que outra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
com a devida vénia, de Antologia Poética [1935-1987], Organização e tradução de Luís Pignatelli, Círculo de Leitores, Março de 1991
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que outra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
com a devida vénia, de Antologia Poética [1935-1987], Organização e tradução de Luís Pignatelli, Círculo de Leitores, Março de 1991
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