Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
Sophia de Mello Breyner Andresen
com a devida vénia, de CEM POEMAS DE SOPHIA, Selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Edição Visão / JL, Agosto de 2004
01/01/2011
24/12/2010
Octavio Paz - "SILÊNCIO"
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que outra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
com a devida vénia, de Antologia Poética [1935-1987], Organização e tradução de Luís Pignatelli, Círculo de Leitores, Março de 1991
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que outra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
com a devida vénia, de Antologia Poética [1935-1987], Organização e tradução de Luís Pignatelli, Círculo de Leitores, Março de 1991
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18/12/2010
O SILÊNCIO
Dos corpos esgotados que silêncio
tão apaziguador se levantava!
(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)
Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.
(Que apertados anéis nos braços nus!)
Mas o silêncio vinha desprendê-los.
David Mourão-Ferreira
com a devida vénia, de OBRA POÉTICA, 1948-1988, Editorial Presença, Lda., Lisboa, Maio, 1997
tão apaziguador se levantava!
(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)
Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.
(Que apertados anéis nos braços nus!)
Mas o silêncio vinha desprendê-los.
David Mourão-Ferreira
com a devida vénia, de OBRA POÉTICA, 1948-1988, Editorial Presença, Lda., Lisboa, Maio, 1997
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12/12/2010
O silêncio
Das matérias invisíveis
o silêncio
é das que mais corrompem
a textura dos dias
e amedrontam
a imobilidade das pedras.
Sandra Costa
com a devida vénia, de Di Versos 8, Revista Semestral de Poesia e Tradução, Edições Sempre-em-Pé, Outono de 2004
o silêncio
é das que mais corrompem
a textura dos dias
e amedrontam
a imobilidade das pedras.
Sandra Costa
com a devida vénia, de Di Versos 8, Revista Semestral de Poesia e Tradução, Edições Sempre-em-Pé, Outono de 2004
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02/12/2010
[Música]
42.
Música
não há aqui mais que a que faço,
a que eu faço e desfaço
à boca do silêncio.
Enquanto lá muito em cima,
em não sei que esferas,
cantam uns anjos que não ouço
mas fazem retinir as minhas mãos.
Pedro Tamen
com a devida vénia, de O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Março de 2010
Música
não há aqui mais que a que faço,
a que eu faço e desfaço
à boca do silêncio.
Enquanto lá muito em cima,
em não sei que esferas,
cantam uns anjos que não ouço
mas fazem retinir as minhas mãos.
Pedro Tamen
com a devida vénia, de O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Março de 2010
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30/11/2010
Insónia
Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite -
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
(...)
Álvaro de Campos
com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão/JL, Fevereiro de 2006
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite -
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
(...)
Álvaro de Campos
com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão/JL, Fevereiro de 2006
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28/11/2010
[em espiral]
em espiral
nasce
do caos
o cosmos
do dervish
a dança
do silêncio
a melodia
ascende
Xavier Zarco
com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998
nasce
do caos
o cosmos
do dervish
a dança
do silêncio
a melodia
ascende
Xavier Zarco
com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998
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