24/12/2010

Octavio Paz - "SILÊNCIO"

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que outra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz

com a devida vénia, de Antologia Poética [1935-1987], Organização e tradução de Luís Pignatelli, Círculo de Leitores, Março de 1991

18/12/2010

O SILÊNCIO

Dos corpos esgotados que silêncio
tão apaziguador se levantava!

(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)

Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.

(Que apertados anéis nos braços nus!)

Mas o silêncio vinha desprendê-los.

David Mourão-Ferreira

com a devida vénia, de OBRA POÉTICA, 1948-1988, Editorial Presença, Lda., Lisboa, Maio, 1997

12/12/2010

O silêncio

Das matérias invisíveis
o silêncio
é das que mais corrompem
a textura dos dias
e amedrontam
a imobilidade das pedras.

Sandra Costa

com a devida vénia, de Di Versos 8, Revista Semestral de Poesia e Tradução, Edições Sempre-em-Pé, Outono de 2004

02/12/2010

[Música]

42.

Música
não há aqui mais que a que faço,
a que eu faço e desfaço
à boca do silêncio.
Enquanto lá muito em cima,
em não sei que esferas,
cantam uns anjos que não ouço
mas fazem retinir as minhas mãos.

Pedro Tamen

com a devida vénia, de O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Março de 2010

30/11/2010

Insónia

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite -
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

(...)

Álvaro de Campos

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão/JL, Fevereiro de 2006

28/11/2010

[em espiral]

em espiral
nasce

do caos
o cosmos

do dervish
a dança

do silêncio
a melodia

ascende

Xavier Zarco

com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998

17/11/2010

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar

com a devida vénia de, Em alguma parte alguma, Ulisseia, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010