16/11/2010

[quando a fome visitar]

quando a fome visitar
o teu corpo

e a sede se deitar
serenamente
no dorso dos teus lábios

e uma luz
ao fundo se anunciar
breve como brisa
na candura da sala

e uma estranha música
contaminar o silêncio
profundamente mergulhando
nos teus olhos

talvez o amor se explique

Xavier Zarco

copiado, com a devida autorização do autor, de aqui

13/11/2010

No reino da metáfora

Tudo é triste no reino da metáfora.
O vermelho e o negro rebentam por si sós
um vive da morte do outro
e ninguém sabe despedir-se
(navalha de ponta e mola
um diz mata o outro esfola):
ninguém sabe despedir-se
estamos juntos para a vida.
Alguém pode achar alguma graça a isto?

Oh que nos põe mais alegres
qualquer metáfora:
O arco-íris encontrou
o seu sustento
nas trevas do centro da terra
(não sei se isto chega a ser uma metáfora
a ser, posso murmurá-la)

A raiz, o centro da terra, é o silêncio.
Habitamos, no entanto, à superfície
isso dá frutos e ruído
rape-se o que resta do tacho.
O certo é que uma coisa morde a outra
então, de que nos queixamos?

(...)

Sérgio Godinho

com a devida vénia, de O SANGUE POR UM FIO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro 2009

07/11/2010

De "Sete Exercícios de Pura Circunstância"

5

Vou ver os barcos a Leça. Parto
para oeste, vivo, esqueço Kant,
Descartes, meu pai - mas que lá cante
a água junto ao cais. Farto

dos livros, ressuscito: longe, os graves
textos, teorias - testemunhos, vãos
escritos, tão longos, quando as mãos
são breves, tarde, e são vazias. Naves

múltiplas, de papel; simuladores
íntimos, do ser. E livre (ou gasto)
esqueço tais discursos, tais saberes

inúteis, a morte, e quantas dores
se tecem, no silêncio. Leve rasto
último, de luz: as ondas (se as leres).

Diogo Alcoforado

com a devida vénia, in TERRA: PORTO,  Edição Exercícios de Dizer, Porto, Maio de 1981

06/11/2010

[A razão é incerta, é assim]

A razão é incerta, é assim,
Vá-se lá saber porquê.
                              Todos eles
Se põem a andar
Um  dia destes.
           Chegam
Com as veias dilatadas,
A bem ou a mal
Lá estão,
            ficam
Não poucas vezes em vão,
Agitados e em busca.
                         Arremessando

Frases contra o silêncio,
Discutem com desdém, assim é que é,
Assim é que não é.

Até outra urna se encher,
Sob o céu vazio
Ouve-se um necrológio.

Durs Grünbein

com a devida vénia, de Aos Queridos Mortos, 33 Epitáfios, Editora Angelus Novus, Lda., Coimbra, 2003

01/11/2010

[Pondero a têmpera, a feição]

Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
                                         Cedo
ao mármore a insalubre
vocação do silêncio.

Albano Martins

com a devida vénia, de VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Fevereiro de 1990

28/10/2010

SUICÍDIO E PAIXÃO

Metáforas, porquê?
"A definição de um homem
não pertence ao homem"
tal como a do insecto escavador
ao pólen,
meus lábios sem diálogo, meu amuo
tão frágil,
tão menino!
Deixa sobre eles poisar o seio.
A morte.
Deixa, pois, e em silêncio,
a palavra infantil
cumprir
o seu destino.

Eduarda Chiote

com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, 2004 

20/10/2010

À MEMÓRIA DE MIGUEL-MANSO

nunca quis ser claro mas declarou, evitou
ser escuro mas encobriu

o atributo colocou quase sempre depois
do nome (assim: um perfume de rosas lentas
insistiu no silêncio da casa) mas

meu deus meu deus a sua obscuridade
era afinal curto-circuito

Miguel-Manso

com a devida vénia, de SANTO SUBITO, Edição do Autor, Lisboa, Março 2010