Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
Cedo
ao mármore a insalubre
vocação do silêncio.
Albano Martins
com a devida vénia, de VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Fevereiro de 1990
01/11/2010
28/10/2010
SUICÍDIO E PAIXÃO
Metáforas, porquê?
"A definição de um homem
não pertence ao homem"
tal como a do insecto escavador
ao pólen,
meus lábios sem diálogo, meu amuo
tão frágil,
tão menino!
Deixa sobre eles poisar o seio.
A morte.
Deixa, pois, e em silêncio,
a palavra infantil
cumprir
o seu destino.
Eduarda Chiote
com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, 2004
"A definição de um homem
não pertence ao homem"
tal como a do insecto escavador
ao pólen,
meus lábios sem diálogo, meu amuo
tão frágil,
tão menino!
Deixa sobre eles poisar o seio.
A morte.
Deixa, pois, e em silêncio,
a palavra infantil
cumprir
o seu destino.
Eduarda Chiote
com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, 2004
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20/10/2010
À MEMÓRIA DE MIGUEL-MANSO
nunca quis ser claro mas declarou, evitou
ser escuro mas encobriu
o atributo colocou quase sempre depois
do nome (assim: um perfume de rosas lentas
insistiu no silêncio da casa) mas
meu deus meu deus a sua obscuridade
era afinal curto-circuito
Miguel-Manso
com a devida vénia, de SANTO SUBITO, Edição do Autor, Lisboa, Março 2010
ser escuro mas encobriu
o atributo colocou quase sempre depois
do nome (assim: um perfume de rosas lentas
insistiu no silêncio da casa) mas
meu deus meu deus a sua obscuridade
era afinal curto-circuito
Miguel-Manso
com a devida vénia, de SANTO SUBITO, Edição do Autor, Lisboa, Março 2010
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12/10/2010
[pássaros calmos]
pássaros calmos.
no campo onde habitaram as guerras
há só silêncio.
os mortos crepitam numa outra dimensão.
sangue, és um maestro de flores cansadas
mendigando às flautas
sopros de serenidade
este campo é um quintal denso
poético
onde pela manhã
os pássaros
convocam
a bruma.
Ondjaki
com a devida vénia, de DENTRO DE MIM FAZ SUL SEGUIDO DE ACTO SANGUÍNEO, Editorial Caminho - 2010
no campo onde habitaram as guerras
há só silêncio.
os mortos crepitam numa outra dimensão.
sangue, és um maestro de flores cansadas
mendigando às flautas
sopros de serenidade
este campo é um quintal denso
poético
onde pela manhã
os pássaros
convocam
a bruma.
Ondjaki
com a devida vénia, de DENTRO DE MIM FAZ SUL SEGUIDO DE ACTO SANGUÍNEO, Editorial Caminho - 2010
09/10/2010
OLHO O ANIMAL
nem sempre é fácil
olhar o animal
mesmo que ele te olhe
sem medo ou ódio
fá-lo tão fixamente
que parece desdenhar
o seu subtil segredo
parece ser melhor sentir
a evidência do mundo
que noite e dia ruidosamente
perfura e corrói
o silêncio da alma
Jean Follain
(trad. Jorge Sousa Braga)
com a devida vénia, de ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro 2005
olhar o animal
mesmo que ele te olhe
sem medo ou ódio
fá-lo tão fixamente
que parece desdenhar
o seu subtil segredo
parece ser melhor sentir
a evidência do mundo
que noite e dia ruidosamente
perfura e corrói
o silêncio da alma
Jean Follain
(trad. Jorge Sousa Braga)
com a devida vénia, de ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro 2005
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07/10/2010
SEM OUTRO INTUITO
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
Luís Miguel Nava
com a devida vénia, de VULCÃO, Quetzal Editores, Lisboa/1995
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
Luís Miguel Nava
com a devida vénia, de VULCÃO, Quetzal Editores, Lisboa/1995
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05/10/2010
CAPELA DOS OSSOS
Junto à porta e ao sol excessivo
de Maio, um velado mendigo
informou-nos que tínhamos de virar
à direita. Depois, na capela, "uma voz"
nos conduziria. Ao vê-lo desdobrar
eloquentemente o boné, deixei cair
uma moeda com a efígie do rei de Espanha.
À direita, frágil negação da morte,
cresciam flores em desordem
e voltámos a pagar para ver
os ossos que nos esperam,
sobrepostos como os dias e as noites
que tão pouco vivemos.
A prometida "voz" não passava afinal
de uma gravação em várias línguas
para gáudio de turistas. E o fundo musical,
infelizmente, ficava demasiado aquém
de Zelenka, Charpentier ou Frei Manuel Cardoso.
Mas tudo preferimos ao silêncio, à certeza de que
os mortos nada têm a dizer aos mortos.
Manuel de Freitas
com a devida vénia, de A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, 2005
de Maio, um velado mendigo
informou-nos que tínhamos de virar
à direita. Depois, na capela, "uma voz"
nos conduziria. Ao vê-lo desdobrar
eloquentemente o boné, deixei cair
uma moeda com a efígie do rei de Espanha.
À direita, frágil negação da morte,
cresciam flores em desordem
e voltámos a pagar para ver
os ossos que nos esperam,
sobrepostos como os dias e as noites
que tão pouco vivemos.
A prometida "voz" não passava afinal
de uma gravação em várias línguas
para gáudio de turistas. E o fundo musical,
infelizmente, ficava demasiado aquém
de Zelenka, Charpentier ou Frei Manuel Cardoso.
Mas tudo preferimos ao silêncio, à certeza de que
os mortos nada têm a dizer aos mortos.
Manuel de Freitas
com a devida vénia, de A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, 2005
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