05/10/2010

CAPELA DOS OSSOS

Junto à porta e ao sol excessivo
de Maio, um velado mendigo
informou-nos que tínhamos de virar
à direita. Depois, na capela, "uma voz"
nos conduziria. Ao vê-lo desdobrar
eloquentemente o boné, deixei cair
uma moeda com a efígie do rei de Espanha.

À direita, frágil negação da morte,
cresciam flores em desordem
e voltámos a pagar para ver
os ossos que nos esperam,
sobrepostos como os dias e as noites
que tão pouco vivemos.

A prometida "voz" não passava afinal
de uma gravação em várias línguas
para gáudio de turistas. E o fundo musical,
infelizmente, ficava demasiado aquém
de Zelenka, Charpentier ou Frei Manuel Cardoso.

Mas tudo preferimos ao silêncio, à certeza de que
os mortos nada têm a dizer aos mortos.

Manuel de Freitas

com a devida vénia, de A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, 2005

03/10/2010

[Como quem]

Como quem
no silêncio concebe
o espaço
para um filho

- assim te vejo, assim
te quero
e louvo
e invoco

e te perfilho.

Albano Martins

com a devida vénia, de TRÊS POEMAS DE AMOR SEGUIDOS DE LIVRO QUARTO, prefácio de Luís Carlos Adriano, Quasi Edições, Fevereiro de 2004

29/09/2010

LEGADO

Gosta do silêncio que esconde os livros e obrigará a redescobri-los nas
margens do esquecimento.

José Amaro Dionísio

com a devida vénia, de Telhados de Vidro, N.º 14 . Setembro . 2010

25/09/2010

OS SILÊNCIOS

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

Maria Teresa Horta

com a devida vénia, de Só de Amor, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2009

22/09/2010

ENGANO

Que engano, engodo, ingrato, esse do sentimento
Ao alto, ao fundo, ao invisível
Alvo.
Já podemos morrer,
A voz que sobe em silêncio pelos tubos da razão,
Frontal como o rosto dum órgão,
Transforma em catedral a capelinha pobre
Do lugarejo humilde
Onde a minha alma reza sem saber pensar.

Armando Silva Carvalho

com a devida vénia, de ANTHERO AREIA & ÁGUA, Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 2010

21/09/2010

LOS PECES

          para a Xana Leite


areia, conchas e uma gruta
onde se reflectia límpida
a vida, repetida à exaustão
que os cantava em espanhol
bebendo no rio. tentámos
tudo o que pudesse prendê-los
à água. nada, porém, senão
vidro seco e silêncio
nos devolveram, ingratos

os peixes.

Renata Correia Botelho

com a devida vénia, de small song, Averno, Setembro de 2010

18/09/2010

[São lágrimas quietas, ou é pólen,]

3.


São lágrimas quietas, ou é pólen,
nos seios as libélulas, o dia?
São limos as palavras pressentidas,
os barcos, as amarras libertadas.
A névoa se insinua à flor do barro,
as veias desnudadas do silêncio,
os pátios de levante estremunhado.
......................................................

Mário Cláudio

com a devida vénia, de Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga, Prefácio de José Carlos Seabra Pereira, Desenhos de Júlio Resende, arcádia, Edição Babel, Maio de 2010