Silêncio:
as cigarras escutam
o canto das rochas
Matsuo Bashô
com a devida vénia, de O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, Antologia poética, Versões de Jorge de Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986
12/09/2010
09/09/2010
PERCEPTORA
Catedrática
Ensina inglês e álgebra.
Oxford.
Colhe
folhinhas tenras, altas.
Casta, mas relativamente.
(Ama em silêncio um aluno elefante).
Nome vulgar: girafa.
Nicolás Guillén
com a devida vénia, de O GRANDE ZOO, Centelha, Coimbra, 1973
Ensina inglês e álgebra.
Oxford.
Colhe
folhinhas tenras, altas.
Casta, mas relativamente.
(Ama em silêncio um aluno elefante).
Nome vulgar: girafa.
Nicolás Guillén
com a devida vénia, de O GRANDE ZOO, Centelha, Coimbra, 1973
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Nicolás Guillén
06/09/2010
A FESTA DO SILÊNCIO
Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.
Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.
Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.
António Ramos Rosa
de Volante Verde, 1986
com a devida vénia, de O POETA NA RUA, Selecção, e Prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi Edições, Julho 2005
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.
Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.
Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.
António Ramos Rosa
de Volante Verde, 1986
com a devida vénia, de O POETA NA RUA, Selecção, e Prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi Edições, Julho 2005
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António Ramos Rosa
25/08/2010
Olhar
Entre o dia que morre
e a noite que vem
uma lágrima escorre
no silêncio de alguém
- silhueta que vi
e ainda me seduz
ao passar por aqui
como um raio de luz
cada vez mais perdido
do seu rosto de sol
agora adormecido
nesta sombra que engole
cada último passo
a caminho do nada
como se nenhum espaço
fosse a minha morada
Fernando Pinto do Amaral
com a devida vénia, de Poemas escolhidos (1990-2007), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2009
e a noite que vem
uma lágrima escorre
no silêncio de alguém
- silhueta que vi
e ainda me seduz
ao passar por aqui
como um raio de luz
cada vez mais perdido
do seu rosto de sol
agora adormecido
nesta sombra que engole
cada último passo
a caminho do nada
como se nenhum espaço
fosse a minha morada
Fernando Pinto do Amaral
com a devida vénia, de Poemas escolhidos (1990-2007), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2009
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14/08/2010
Han Shan - na Tradução de António Graça Abreu - "156"
Habito a montanha,
ninguém me conhece.
Entre nuvens brancas,
o silêncio, sempre o silêncio.
Han Shan
com a devida vénia, de DiVersos, Poesia e Tradução: N.º15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé
ninguém me conhece.
Entre nuvens brancas,
o silêncio, sempre o silêncio.
Han Shan
com a devida vénia, de DiVersos, Poesia e Tradução: N.º15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé
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Han Shan
04/08/2010
[A tinta preta que baila no papel]
A tinta preta que baila no papel
garante a eternidade do que empunha
o objecto dançarino e frio
(julgava eu um dia, ou simplesmente
fingia acreditar). A tinta
de qualquer cor e o papel
ou ferro onde se inscreva
passam voláteis como os dedos
cheios de intenções e como
o som do cuco três vezes repetido.
Ao silêncio seguinte ninguém sequer
responde, pois não sabe
ter havido um som, uma verdade, um antes.
Pedro Tamen
com a devida vénia, de Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000
garante a eternidade do que empunha
o objecto dançarino e frio
(julgava eu um dia, ou simplesmente
fingia acreditar). A tinta
de qualquer cor e o papel
ou ferro onde se inscreva
passam voláteis como os dedos
cheios de intenções e como
o som do cuco três vezes repetido.
Ao silêncio seguinte ninguém sequer
responde, pois não sabe
ter havido um som, uma verdade, um antes.
Pedro Tamen
com a devida vénia, de Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000
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Pedro Tamen
29/07/2010
Manual de escultura
13
o silêncio
entra nas fissuras da casa
interdito
é um deus de conveniência
que ilumina
os relâmpagos da memória
- esculturas
que se desenham nas paredes -
e, de sombras
se confundem com a voz clara
longínqua da árvore nua
é na lúdica
fala em construção que o cinzel
lavra o rosto
da emoção permanente, sacra
do segredo
que se atravessa na comunhão
do desejo
revela a pedra
José Félix
in manual de escultura
(retirado, com a devida autorização do autor, de Escritas)
o silêncio
entra nas fissuras da casa
interdito
é um deus de conveniência
que ilumina
os relâmpagos da memória
- esculturas
que se desenham nas paredes -
e, de sombras
se confundem com a voz clara
longínqua da árvore nua
é na lúdica
fala em construção que o cinzel
lavra o rosto
da emoção permanente, sacra
do segredo
que se atravessa na comunhão
do desejo
revela a pedra
José Félix
in manual de escultura
(retirado, com a devida autorização do autor, de Escritas)
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