Habito a montanha,
ninguém me conhece.
Entre nuvens brancas,
o silêncio, sempre o silêncio.
Han Shan
com a devida vénia, de DiVersos, Poesia e Tradução: N.º15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé
14/08/2010
04/08/2010
[A tinta preta que baila no papel]
A tinta preta que baila no papel
garante a eternidade do que empunha
o objecto dançarino e frio
(julgava eu um dia, ou simplesmente
fingia acreditar). A tinta
de qualquer cor e o papel
ou ferro onde se inscreva
passam voláteis como os dedos
cheios de intenções e como
o som do cuco três vezes repetido.
Ao silêncio seguinte ninguém sequer
responde, pois não sabe
ter havido um som, uma verdade, um antes.
Pedro Tamen
com a devida vénia, de Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000
garante a eternidade do que empunha
o objecto dançarino e frio
(julgava eu um dia, ou simplesmente
fingia acreditar). A tinta
de qualquer cor e o papel
ou ferro onde se inscreva
passam voláteis como os dedos
cheios de intenções e como
o som do cuco três vezes repetido.
Ao silêncio seguinte ninguém sequer
responde, pois não sabe
ter havido um som, uma verdade, um antes.
Pedro Tamen
com a devida vénia, de Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000
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29/07/2010
Manual de escultura
13
o silêncio
entra nas fissuras da casa
interdito
é um deus de conveniência
que ilumina
os relâmpagos da memória
- esculturas
que se desenham nas paredes -
e, de sombras
se confundem com a voz clara
longínqua da árvore nua
é na lúdica
fala em construção que o cinzel
lavra o rosto
da emoção permanente, sacra
do segredo
que se atravessa na comunhão
do desejo
revela a pedra
José Félix
in manual de escultura
(retirado, com a devida autorização do autor, de Escritas)
o silêncio
entra nas fissuras da casa
interdito
é um deus de conveniência
que ilumina
os relâmpagos da memória
- esculturas
que se desenham nas paredes -
e, de sombras
se confundem com a voz clara
longínqua da árvore nua
é na lúdica
fala em construção que o cinzel
lavra o rosto
da emoção permanente, sacra
do segredo
que se atravessa na comunhão
do desejo
revela a pedra
José Félix
in manual de escultura
(retirado, com a devida autorização do autor, de Escritas)
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28/07/2010
OS GIRASSÓIS
Vós, girassóis dourados,
Intimamente votados à morte,
Vós humildes irmãs, num tal silêncio
Acaba o ano de Helian,
O do frio na montanha.
Então empalidece de beijos
A sua fonte ébria
No meio daquelas flores
Douradas de melancolia
O espírito rege-se
Pelas trevas do silêncio.
Georg Trakl
(tradução João Barrento)
com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2000
Intimamente votados à morte,
Vós humildes irmãs, num tal silêncio
Acaba o ano de Helian,
O do frio na montanha.
Então empalidece de beijos
A sua fonte ébria
No meio daquelas flores
Douradas de melancolia
O espírito rege-se
Pelas trevas do silêncio.
Georg Trakl
(tradução João Barrento)
com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2000
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17/07/2010
PRIMEIRO POEMA
«Sem horizonte ou lua, sem vento
nem bandeira»
L. Von Maaske
A palavra, vida inteira, mata.
O seu silêncio não fala nem cala: ri.
Sem antes, nem depois, nem agora.
É o infalável que fala.
Não o ouças: ouve-o.
Oh, falar sem ouvir,
como ri o riso
pleno dos mortos,
os meus e os teus mortos
debaixo de nós!
1991
Manuel António Pina
com a devida vénia, de NENHUMA PALAVRA E NENHUMA LEMBRANÇA, Assírio & Alvim, Setembro de 1999
nem bandeira»
L. Von Maaske
A palavra, vida inteira, mata.
O seu silêncio não fala nem cala: ri.
Sem antes, nem depois, nem agora.
É o infalável que fala.
Não o ouças: ouve-o.
Oh, falar sem ouvir,
como ri o riso
pleno dos mortos,
os meus e os teus mortos
debaixo de nós!
1991
Manuel António Pina
com a devida vénia, de NENHUMA PALAVRA E NENHUMA LEMBRANÇA, Assírio & Alvim, Setembro de 1999
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01/07/2010
Cultivo doméstico
O cheiro da menta
no canteiro improvisado
entrou depressa demais
nos meus pulmões.
O ar tornou-se um silêncio incómodo
- pouco e frio. Essas palavras,
que íamos agora ouvir, a apagarem-se
diante dos meus olhos. E a acenderem-se
logo depois, debaixo das tuas pálpebras.
Os néons substituíram toda a mobília
do quarto: já não a vejo.
Descobrimos a seguir os vapores
que se levantavam das minhas
mãos, até das chávenas vazias.
E calámo-nos.
Quase nada do que foi plantado
resistiu ao domínio da hortelã.
Os outros versos nunca chegaram a existir.
Margarida Ferra
com a devida vénia, de CURSO INTENSIVO DE JARDINAGEM, &etc, Maio de 2010
no canteiro improvisado
entrou depressa demais
nos meus pulmões.
O ar tornou-se um silêncio incómodo
- pouco e frio. Essas palavras,
que íamos agora ouvir, a apagarem-se
diante dos meus olhos. E a acenderem-se
logo depois, debaixo das tuas pálpebras.
Os néons substituíram toda a mobília
do quarto: já não a vejo.
Descobrimos a seguir os vapores
que se levantavam das minhas
mãos, até das chávenas vazias.
E calámo-nos.
Quase nada do que foi plantado
resistiu ao domínio da hortelã.
Os outros versos nunca chegaram a existir.
Margarida Ferra
com a devida vénia, de CURSO INTENSIVO DE JARDINAGEM, &etc, Maio de 2010
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24/06/2010
DAS FILOSOFIAS
Dos filósofos todos
do compêndio, faltou só um:
cego, lia nas trevas;
mudo, cantava em silêncio.
E ainda tinha ânimo
para atear incêndios.
Paulinho Assunção
com a devida vénia, de cidades escritas
do compêndio, faltou só um:
cego, lia nas trevas;
mudo, cantava em silêncio.
E ainda tinha ânimo
para atear incêndios.
Paulinho Assunção
com a devida vénia, de cidades escritas
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