o que diria apolo
do insecto assim votivo
e mudo?
história, se a há, é do inexacto,
do regresso impossível aos silêncios
da quente vizinhança;
e talvez seja
irrespirável a beleza:
a cigarra de eunomo ao atalhar
com seu murmúrio doce
a corda que na cítara partira.
a cigarra de bronze repetiu-a?
Vasco Graça Moura
com a devida vénia, de Os Rostos Comunicantes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1984
05/06/2010
20/05/2010
... dóceis como ópio
não me negues o olhar
agora que já não te consigo ver
os sentidos perderam-se na boca do inferno
na língua de cadáveres esfomeados
penosamente, dóceis como ópio
não rasgues o céu que não te pertence
no brilho que refutas com inglórias
de tudo, que já não te é semelhante,
guarda o fato preto, abutre!
encharca-o de naftalina
quando eu morrer serei as cinzas da tua cegueira,
na garganta do meu silêncio guardarei
os nós do arame farpado dos teus gritos
Conceição Bernardino
mais poemas da autora, aqui
agora que já não te consigo ver
os sentidos perderam-se na boca do inferno
na língua de cadáveres esfomeados
penosamente, dóceis como ópio
não rasgues o céu que não te pertence
no brilho que refutas com inglórias
de tudo, que já não te é semelhante,
guarda o fato preto, abutre!
encharca-o de naftalina
quando eu morrer serei as cinzas da tua cegueira,
na garganta do meu silêncio guardarei
os nós do arame farpado dos teus gritos
Conceição Bernardino
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10/05/2010
O FOTÓGRAFO
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era o carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski - o seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta do mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
Manoel de Barros
com a devida vénia, de ENSAIOS FOTOGRÁFICOS, Editora Record, Rio de Janeiro * São Paulo, 2000
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era o carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski - o seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta do mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
Manoel de Barros
com a devida vénia, de ENSAIOS FOTOGRÁFICOS, Editora Record, Rio de Janeiro * São Paulo, 2000
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08/05/2010
RICOCHETE
Que margens têm os rios
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?
Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?
Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?
Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro de nós?
Que sereia é o poente,
metade não sei de quê
a pentear-se com o pente
do olhar finito que o vê?
Que medida é o tamanho
de estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
um corpo à alma que é?
Natália Correia
com a devida vénia, de AS MAÇÃS DE ORESTES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1970
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?
Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?
Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?
Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro de nós?
Que sereia é o poente,
metade não sei de quê
a pentear-se com o pente
do olhar finito que o vê?
Que medida é o tamanho
de estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
um corpo à alma que é?
Natália Correia
com a devida vénia, de AS MAÇÃS DE ORESTES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1970
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02/05/2010
Na Biblioteca
O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente
[tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.
Manuel António Pina
com a devida vénia, de CUIDADOS INTENSIVOS, Edições Afrontamento, Porto, 1994
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente
[tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.
Manuel António Pina
com a devida vénia, de CUIDADOS INTENSIVOS, Edições Afrontamento, Porto, 1994
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17/04/2010
O SILÊNCIO
É cada vez mais difícil surpreendê-lo. Ele defende-se (ou
seremos nós que nos defendemos dele?), refugia-se em
lugares cada vez mais afastados, inóspitos por vezes:
pântanos, grutas abandonadas.
Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio. Desde
o ácer até à vulgar tradescância. Mas quem melhor se
adapta são, sem dúvida, os miosótis. Depois de alguns
minutos em silêncio já não te consegues mexer, com
receio de os pisares.
Jorge de Sousa Braga
com a devida vénia, de O Poeta Nu, Fenda Edições, Lisboa, 1999
seremos nós que nos defendemos dele?), refugia-se em
lugares cada vez mais afastados, inóspitos por vezes:
pântanos, grutas abandonadas.
Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio. Desde
o ácer até à vulgar tradescância. Mas quem melhor se
adapta são, sem dúvida, os miosótis. Depois de alguns
minutos em silêncio já não te consegues mexer, com
receio de os pisares.
Jorge de Sousa Braga
com a devida vénia, de O Poeta Nu, Fenda Edições, Lisboa, 1999
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08/04/2010
apocalipse
é preciso
implodir a palavra
desconstruir
o edifício
libertar
o silêncio
Ozias Filho
com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005
implodir a palavra
desconstruir
o edifício
libertar
o silêncio
Ozias Filho
com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005
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