O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente
[tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.
Manuel António Pina
com a devida vénia, de CUIDADOS INTENSIVOS, Edições Afrontamento, Porto, 1994
02/05/2010
17/04/2010
O SILÊNCIO
É cada vez mais difícil surpreendê-lo. Ele defende-se (ou
seremos nós que nos defendemos dele?), refugia-se em
lugares cada vez mais afastados, inóspitos por vezes:
pântanos, grutas abandonadas.
Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio. Desde
o ácer até à vulgar tradescância. Mas quem melhor se
adapta são, sem dúvida, os miosótis. Depois de alguns
minutos em silêncio já não te consegues mexer, com
receio de os pisares.
Jorge de Sousa Braga
com a devida vénia, de O Poeta Nu, Fenda Edições, Lisboa, 1999
seremos nós que nos defendemos dele?), refugia-se em
lugares cada vez mais afastados, inóspitos por vezes:
pântanos, grutas abandonadas.
Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio. Desde
o ácer até à vulgar tradescância. Mas quem melhor se
adapta são, sem dúvida, os miosótis. Depois de alguns
minutos em silêncio já não te consegues mexer, com
receio de os pisares.
Jorge de Sousa Braga
com a devida vénia, de O Poeta Nu, Fenda Edições, Lisboa, 1999
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08/04/2010
apocalipse
é preciso
implodir a palavra
desconstruir
o edifício
libertar
o silêncio
Ozias Filho
com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005
implodir a palavra
desconstruir
o edifício
libertar
o silêncio
Ozias Filho
com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005
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Ozias Filho
01/04/2010
OUTRO LUGAR
A verdade pertence aos gestos
ao menor dos nossos gestos
antes de chegarem palavras que nos socorram
às vezes é a verdade de um amor
Escassos propósitos as palavras
para o abalo da terra
em que se tornou de repente
a nossa vida
Um sofrimento não nos larga
a manhã parece-se estranhamente
com outro lugar
saberemos então que significam
os intervalos do silêncio
onde o silêncio é maior
José Tolentino Mendonça
com a devida vénia, de DE IGUAL PARA IGUAL, Assírio & Alvim, Março de 2001
ao menor dos nossos gestos
antes de chegarem palavras que nos socorram
às vezes é a verdade de um amor
Escassos propósitos as palavras
para o abalo da terra
em que se tornou de repente
a nossa vida
Um sofrimento não nos larga
a manhã parece-se estranhamente
com outro lugar
saberemos então que significam
os intervalos do silêncio
onde o silêncio é maior
José Tolentino Mendonça
com a devida vénia, de DE IGUAL PARA IGUAL, Assírio & Alvim, Março de 2001
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31/03/2010
[Ficar]
Ficar
à escuta
À escuta
do silêncio
Adília Lopes
com a devida vénia, de LE VITRAIL LA NUIT
*
A ÁRVORE CORTADA,
&etc, Fevereiro de 2006
à escuta
À escuta
do silêncio
Adília Lopes
com a devida vénia, de LE VITRAIL LA NUIT
*
A ÁRVORE CORTADA,
&etc, Fevereiro de 2006
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28/03/2010
SIMULACRO
Um gesto pode ser
um simulacro apenas.
Como quando arrefece
e acendes a lareira
para dar sangue às brasas.
No halo
da chama há sempre
uma voz que cintila
e te agradece.
É isso que se chama
dar voz ao silêncio.
Albano Martins
com a devida vénia, de ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras Editores, S.A., Maio de 1999
um simulacro apenas.
Como quando arrefece
e acendes a lareira
para dar sangue às brasas.
No halo
da chama há sempre
uma voz que cintila
e te agradece.
É isso que se chama
dar voz ao silêncio.
Albano Martins
com a devida vénia, de ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras Editores, S.A., Maio de 1999
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20/03/2010
O silêncio
A morte dos sonhos e a solidão
são medidas e pesadas como todas
as minhas excreções, de 8 em 8 horas.
Neste breve parêntesis de químicos
entre a febre e as carências
que amparam o pensamento
cai sobre o dia uma luz sem ruído,
sem outro objectivo que o silêncio,
esse mapa do futuro isento da morte,
que me faz contemplar - Hoje começou a primavera.
Rui Miguel Ribeiro
com a devida vénia, de RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março de 2010
são medidas e pesadas como todas
as minhas excreções, de 8 em 8 horas.
Neste breve parêntesis de químicos
entre a febre e as carências
que amparam o pensamento
cai sobre o dia uma luz sem ruído,
sem outro objectivo que o silêncio,
esse mapa do futuro isento da morte,
que me faz contemplar - Hoje começou a primavera.
Rui Miguel Ribeiro
com a devida vénia, de RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março de 2010
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