17/04/2010

O SILÊNCIO

É cada vez mais difícil surpreendê-lo. Ele defende-se (ou
seremos nós que nos defendemos dele?), refugia-se  em
lugares cada vez   mais afastados, inóspitos  por  vezes:
pântanos, grutas abandonadas.



Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio. Desde
o ácer até à vulgar tradescância. Mas  quem  melhor  se
adapta  são, sem dúvida, os  miosótis. Depois  de alguns
minutos  em silêncio  já  não  te  consegues  mexer, com
receio de os pisares.

Jorge de Sousa Braga

com a devida vénia, de O Poeta Nu, Fenda Edições, Lisboa, 1999

08/04/2010

apocalipse

é preciso
implodir a palavra

desconstruir
o edifício

libertar
o silêncio

Ozias Filho

com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005

01/04/2010

OUTRO LUGAR

A verdade pertence aos gestos
ao menor dos nossos gestos
antes de chegarem palavras que nos socorram
às vezes é a verdade de um amor

Escassos propósitos as palavras
para o abalo da terra
em que se tornou de repente
a nossa vida

Um sofrimento não nos larga
a manhã parece-se estranhamente
com outro lugar
saberemos então que significam
os intervalos do silêncio
onde o silêncio é maior

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de DE IGUAL PARA IGUAL, Assírio & Alvim, Março de 2001

31/03/2010

[Ficar]

Ficar
à escuta

À escuta
do silêncio

Adília Lopes

com a devida vénia, de LE VITRAIL LA NUIT
                                                         *
                                       A ÁRVORE CORTADA,
&etc, Fevereiro de 2006

28/03/2010

SIMULACRO

Um gesto pode ser
um simulacro apenas.
Como quando arrefece
e acendes a lareira
para dar sangue às brasas.
No halo
da chama há sempre
uma voz que cintila
e te agradece.
É isso que se chama
dar voz ao silêncio.

Albano Martins

com a devida vénia, de ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras Editores, S.A., Maio de 1999

20/03/2010

O silêncio

A morte dos sonhos e a solidão
são medidas e pesadas como todas
as minhas excreções, de 8 em 8 horas.
Neste breve parêntesis de químicos
entre a febre e as carências
que amparam o pensamento
cai sobre o dia uma luz sem ruído,
sem outro objectivo que o silêncio,
esse mapa do futuro isento da morte,
que me faz contemplar - Hoje começou a primavera.

Rui Miguel Ribeiro

com a devida vénia, de RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março de 2010

18/03/2010

AMOR FORTUITO

Seduziu. E levou
naquele rubro olhar
tudo o que neste coube
sem ter sido gozado.

Que súbita presença
de casual encontro
com gestos de silêncio
e quietude de assomo.

E depois? Um tumulto,
nada mais assumido:
o tremor esvaído
que não teve percurso.

António Salvado

com a devida vénia, de ESSA ESTÓRIA, Portugália Editora, Junho de 2008