16/03/2010

[Láudamo]

Láudamo, gota  a  gota  sobre mim. De
corpos   arrastados  para  um   silêncio
comum.  Rompido, a golpes de joelhos,
como  um  vidro desfeito  na  noite  de
um  bairro,  como  a  respiração de um
incenso.

Uma cortina que cai.

Gota   a   gota   sobre  mim,  clepsidra
invisível  a  destilar o  álcool  dos meus
olhos na ferida do mundo.

Vasco Gato

com a devida vénia, de Omertà, Quasi Edições, Março de 2007

14/03/2010

EM SUMA

Um a um foram saindo de cena
os companheiros. Partiam, com a tarde,
para fins empobrecidos,
na rota dos eleitos para filhos e despesas.
As noites faziam-se livrescas,
estendiam sobre mim o seu império
de silêncios e desfalques.

Entretanto, engrossava o meu diário
de rasuras, de cálculos moídos,
partilhado por verrinas e recados
sem resposta. Bebia o desalento
por canecas de latão, corria
as persianas. É muito pouca sorte.

Os versos, com o tempo, tornavam-se mais longos,
cresciam para trás, para fora
dos cadernos, ocupavam minha vida
tal a morte na semente de madeira.
Afeiçoava-me isso sim à solidão, cortava
o negativo dos afectos, protegido na cabeça
por um chapéu de feltro;
pois essas são as coisas e as coisas
que ontem nos pareciam boas
não existem.

José Miguel Silva

com a devida vénia, de VISTA PARA UM PÁTIO, seguido de DESORDEM, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Março de 2003

10/03/2010

[E assim a minha mão vai ao centro do mundo]

6.


E assim a minha mão vai ao centro do mundo
e o mundo fremente me responde.
Responde dadivoso a esta mão maltratada
de operário quase cego.
Não sei agradecer a mercê deste comércio
entre a mão e o mundo,
este rio de silêncio...

Pedro Tamen

com a devida vénia, de O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2010

06/03/2010

[vacilando]

Bêbado
o seu ombro
ilumina as esquinas

e duma ave nocturna
que o ultrapassa
o voo fosforece
a seu lado

em vez da lagosta de Nerval
arrasta em copo
pelo silêncio inquebrável

ninguém vê a santidade
desse halo de hálito.

Sebastião Alba

com a devida vénia, de UMA PEDRA AO LADO DA EVIDÊNCIA, Antologia Poética, Selecção, apresentação e notas de Vergílio Alberto Vieira, Campo das Letras - Editores, S.A., 2000

28/02/2010

há silêncios que nem supões
há uma idade em que os animais
que nos amam ou cremos que
nos amam ou queremos que
nunca nos perdoam o se
a retribuição do amor
ou o reenvio da solidão



há homens que suam fazem
a barba com as águas
das chuvas ininterruptas
lavam os olhos às lágrimas
contínuas acumuladas
e daí as mulheres os amam
daí as mães os esperam
daí só são ingénuos piegas
os homens que não amam



há gaivotas em chamas
despenhando-se no mar
agarradas ao seu cio
voraz viril voador
pois o amor não se diz
e só se faz o amor



Joaquim Castro Caldas



com a devida vénia, de , edições apalavrados

26/02/2010

ENGATE

No silêncio largo
- uma pérgula -

chuvisca
(míngua bem planejada)

um quase-que-sorriso.
Vem a resposta: um lóbulo

de frase, uma meia-palavra,
uma vírgula. Uma isca, enfim.

Os olhos, no entanto, largos,
não dão trégua.

Mais adiante, serão, talvez, o suor, a urtiga, o fêmur,
a língua, milhões de palavras, glândulas e tempestades.

Mas, antes, atam gestos
mínimos, manuelinos.

Eucanaã Ferraz

com a devida vénia, de Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007

18/02/2010

Sob epígrafe de Juan A. Olmedo

     Frequentó la escritura, rehizo muchos versos
        mas le faltó el dolor para ser un poeta.

        Juan A. Olmedo


uma guitarra acordara
por entre pétalas do fogo

ferida
tangia-se por dedos
de memórias antigas
como uma casa em ruínas
em que as pedras
fendem o silêncio

e um homem escrevia o poema
pleno de metáfora
como quem ergue
em talha dourada o sarcófago
das palavras sem música dentro

no entanto
uma guitarra acordara

Xavier Zarco

com a devida autorização, retirado de aqui