06/03/2010

[vacilando]

Bêbado
o seu ombro
ilumina as esquinas

e duma ave nocturna
que o ultrapassa
o voo fosforece
a seu lado

em vez da lagosta de Nerval
arrasta em copo
pelo silêncio inquebrável

ninguém vê a santidade
desse halo de hálito.

Sebastião Alba

com a devida vénia, de UMA PEDRA AO LADO DA EVIDÊNCIA, Antologia Poética, Selecção, apresentação e notas de Vergílio Alberto Vieira, Campo das Letras - Editores, S.A., 2000

28/02/2010

há silêncios que nem supões
há uma idade em que os animais
que nos amam ou cremos que
nos amam ou queremos que
nunca nos perdoam o se
a retribuição do amor
ou o reenvio da solidão



há homens que suam fazem
a barba com as águas
das chuvas ininterruptas
lavam os olhos às lágrimas
contínuas acumuladas
e daí as mulheres os amam
daí as mães os esperam
daí só são ingénuos piegas
os homens que não amam



há gaivotas em chamas
despenhando-se no mar
agarradas ao seu cio
voraz viril voador
pois o amor não se diz
e só se faz o amor



Joaquim Castro Caldas



com a devida vénia, de , edições apalavrados

26/02/2010

ENGATE

No silêncio largo
- uma pérgula -

chuvisca
(míngua bem planejada)

um quase-que-sorriso.
Vem a resposta: um lóbulo

de frase, uma meia-palavra,
uma vírgula. Uma isca, enfim.

Os olhos, no entanto, largos,
não dão trégua.

Mais adiante, serão, talvez, o suor, a urtiga, o fêmur,
a língua, milhões de palavras, glândulas e tempestades.

Mas, antes, atam gestos
mínimos, manuelinos.

Eucanaã Ferraz

com a devida vénia, de Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007

18/02/2010

Sob epígrafe de Juan A. Olmedo

     Frequentó la escritura, rehizo muchos versos
        mas le faltó el dolor para ser un poeta.

        Juan A. Olmedo


uma guitarra acordara
por entre pétalas do fogo

ferida
tangia-se por dedos
de memórias antigas
como uma casa em ruínas
em que as pedras
fendem o silêncio

e um homem escrevia o poema
pleno de metáfora
como quem ergue
em talha dourada o sarcófago
das palavras sem música dentro

no entanto
uma guitarra acordara

Xavier Zarco

com a devida autorização, retirado de aqui

Ozias Filho - "génesis"

     ...Que as palavras forcem seu limite e eu, que as destruo em mim,
                       em mim as force e no seu absurdo me esbanje e grite...
                                        (Nauro Machado, do livro "Campo Sem Base")


génesis


e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem

Ozias Filho

com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005

15/02/2010

INFINITO SILÊNCIO

          houve
                  (há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas

      antes da luz

      a matéria da matéria

de onde tudo vem incessante e onde
             tudo se apaga
             eternamente

esse silêncio
          grita sob nossa vida
          e de ponta a ponta
          a atravessa
                           estridente

Ferreira Gullar

com a devida vénia, de Obra Poética, Quasi Edições, Outubro de 2003

07/02/2010

"ESTALACTITE - XXI"

esta poeira
lenta
hesita em regressar
ao chão
[o poema
sonha ainda
o arquétipo
do voo],
mas cai
e localiza
na cal
o ponto morto
que propaga
o silêncio

Carlos de Oliveira

com a devida vénia, de MICROPAISAGEM, Publicações Dom Quixote, Porto, Setembro de 1969