houve
(há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas
antes da luz
a matéria da matéria
de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente
esse silêncio
grita sob nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente
Ferreira Gullar
com a devida vénia, de Obra Poética, Quasi Edições, Outubro de 2003
15/02/2010
07/02/2010
"ESTALACTITE - XXI"
esta poeira
lenta
hesita em regressar
ao chão
[o poema
sonha ainda
o arquétipo
do voo],
mas cai
e localiza
na cal
o ponto morto
que propaga
o silêncio
Carlos de Oliveira
com a devida vénia, de MICROPAISAGEM, Publicações Dom Quixote, Porto, Setembro de 1969
lenta
hesita em regressar
ao chão
[o poema
sonha ainda
o arquétipo
do voo],
mas cai
e localiza
na cal
o ponto morto
que propaga
o silêncio
Carlos de Oliveira
com a devida vénia, de MICROPAISAGEM, Publicações Dom Quixote, Porto, Setembro de 1969
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06/02/2010
Soneto de Eurydice
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
Sophia de Mello Breyner Andresen
com a devida vénia, de CEM POEMAS DE SOPHIA, Selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Visão e JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Agosto de 2004
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
Sophia de Mello Breyner Andresen
com a devida vénia, de CEM POEMAS DE SOPHIA, Selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Visão e JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Agosto de 2004
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04/02/2010
AVISO (poema de Sylvia Beirute)
AVISO
se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.
Sylvia Beirute
inédito
com a devida autorização, retirado de aqui
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[Só se o sol afundar existe a alba]
Só se o sol afundar existe a alba.
Só se houver horizontes nasce o dia.
Só quando é de noite e amanhece,
entre esterco e arames canta o galo.
E nesta fuga de experiência e tempo
só germinam lugares, rostos, datas,
se lembrá-los trouxer uma esperança.
Outra coisa te disse, em Rio Grande,
a árvore morta ao pé da corrente,
por terra para unir as duas margens?
E essa primavera de há um ano,
cheia de água e luz, não repetia
que temos de enterrar-nos para florir?
Cantava-o na represa o grilo oculto.
A flor mudava-o em fino cheiro.
Dizia-to na penumbra o pássaro:
sempre que algo acaba, algo desperta
e lança raízes num ser recôndito.
Sempre que algo finda, que alguém morre
e no silêncio te invade a fadiga,
teu ai rebelde reza a um Deus sem nome.
Deus que não é desculpa nem certeza.
Não é do tempo, mas do tempo é.
Arde escondido e descoberto foge,
na forja de dons e desgraças
te molda a golpes de martelo e fogo.
José Mateos
com a devida vénia, de A NÉVOA, tradução e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães, Averno, Maio de 2006
Só se houver horizontes nasce o dia.
Só quando é de noite e amanhece,
entre esterco e arames canta o galo.
E nesta fuga de experiência e tempo
só germinam lugares, rostos, datas,
se lembrá-los trouxer uma esperança.
Outra coisa te disse, em Rio Grande,
a árvore morta ao pé da corrente,
por terra para unir as duas margens?
E essa primavera de há um ano,
cheia de água e luz, não repetia
que temos de enterrar-nos para florir?
Cantava-o na represa o grilo oculto.
A flor mudava-o em fino cheiro.
Dizia-to na penumbra o pássaro:
sempre que algo acaba, algo desperta
e lança raízes num ser recôndito.
Sempre que algo finda, que alguém morre
e no silêncio te invade a fadiga,
teu ai rebelde reza a um Deus sem nome.
Deus que não é desculpa nem certeza.
Não é do tempo, mas do tempo é.
Arde escondido e descoberto foge,
na forja de dons e desgraças
te molda a golpes de martelo e fogo.
José Mateos
com a devida vénia, de A NÉVOA, tradução e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães, Averno, Maio de 2006
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01/02/2010
RUÍDO
Sapateando na noite,
o comboio faz tã-tã
(assim o julgo).
Porém alguém a meu lado
diz que não consegue adormecer
por causa do trape-trape
das rodas nos carris.
Está visto: cada um ouve
o comboio como quer.
E afinal o comboio nada faz
senão um silêncio aterrador.
Nós é que lhe fazemos o ruído.
A. M. Pires Cabral
com a devida vénia, de QUE COMBOIO É ESTE, Edições Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005
o comboio faz tã-tã
(assim o julgo).
Porém alguém a meu lado
diz que não consegue adormecer
por causa do trape-trape
das rodas nos carris.
Está visto: cada um ouve
o comboio como quer.
E afinal o comboio nada faz
senão um silêncio aterrador.
Nós é que lhe fazemos o ruído.
A. M. Pires Cabral
com a devida vénia, de QUE COMBOIO É ESTE, Edições Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005
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30/01/2010
[O profundo silêncio das flores]
O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o voo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda.
Vagueio por literaturas, leite
derramado, danço
a horas perdidas, sigo na música
a cor deixada pelo vento. Uma brisa
curta que apenas estremece
o coração. A manhã toma forma,
as árvores ainda não devoram
a sombra. O Mar Negro
solta as suas medusas na babugem
da praia. Olho da varanda
o horizonte: um dia sem surpresas,
um dia apenas a passar. Falta-me
um sonho, uma hélice pronta
a agitar as águas. Uma testemunha
capaz de modelar o inevitável.
Varna, 8.6.86
Egito Gonçalves
com a devida vénia, de E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, 1995
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o voo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda.
Vagueio por literaturas, leite
derramado, danço
a horas perdidas, sigo na música
a cor deixada pelo vento. Uma brisa
curta que apenas estremece
o coração. A manhã toma forma,
as árvores ainda não devoram
a sombra. O Mar Negro
solta as suas medusas na babugem
da praia. Olho da varanda
o horizonte: um dia sem surpresas,
um dia apenas a passar. Falta-me
um sonho, uma hélice pronta
a agitar as águas. Uma testemunha
capaz de modelar o inevitável.
Varna, 8.6.86
Egito Gonçalves
com a devida vénia, de E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, 1995
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