04/02/2010

AVISO (poema de Sylvia Beirute)














AVISO


se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.

Sylvia Beirute

inédito

com a devida autorização, retirado de aqui

[Só se o sol afundar existe a alba]

Só se o sol afundar existe a alba.
Só se houver horizontes nasce o dia.
Só quando é de noite e amanhece,
entre esterco e arames canta o galo.
E nesta fuga de experiência e tempo
só germinam lugares, rostos, datas,
se lembrá-los trouxer uma esperança.

Outra coisa te disse, em Rio Grande,
a árvore morta ao pé da corrente,
por terra para unir as duas margens?
E essa primavera de há um ano,
cheia de água e luz, não repetia
que temos de enterrar-nos para florir?

Cantava-o na represa o grilo oculto.
A flor mudava-o em fino cheiro.
Dizia-to na penumbra o pássaro:
sempre que algo acaba, algo desperta
e lança raízes num ser recôndito.
Sempre que algo finda, que alguém morre

e no silêncio te invade a fadiga,
teu ai rebelde reza a um Deus sem nome.
Deus que não é desculpa nem certeza.
Não é do tempo, mas do tempo é.
Arde escondido e descoberto foge,
na forja de dons e desgraças
te molda a golpes de martelo e fogo.

José Mateos

com a devida vénia, de A NÉVOA, tradução e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães, Averno, Maio de 2006

01/02/2010

RUÍDO

Sapateando na noite,
o comboio faz tã-tã
(assim o julgo).

Porém alguém a meu lado
diz que não consegue adormecer
por causa do trape-trape
das rodas nos carris.

Está visto: cada um ouve
o comboio como quer.

E afinal o comboio nada faz
senão um silêncio aterrador.
Nós é que lhe fazemos o ruído.

A. M. Pires Cabral

com a devida vénia, de QUE COMBOIO É ESTE, Edições Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005

30/01/2010

[O profundo silêncio das flores]

O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o voo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda.
Vagueio por literaturas, leite
derramado, danço
a horas perdidas, sigo na música
a cor deixada pelo vento. Uma brisa
curta que apenas estremece
o coração. A manhã toma forma,
as árvores ainda não devoram
a sombra. O Mar Negro
solta as suas medusas na babugem
da praia. Olho da varanda
o horizonte: um dia sem surpresas,
um dia apenas a passar. Falta-me
um sonho, uma hélice pronta
a agitar as águas. Uma testemunha
capaz de modelar o inevitável.

                                                           Varna, 8.6.86

Egito Gonçalves

com a devida vénia, de E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, 1995

26/01/2010

RITOS FINAIS

pintas camaleões nas folhas secas do meu jardim de outono
fazes muito bem
só peço-te não machuques o peixe-espada que não sabe mais
esgrimir porque o tornaste durante um século prisioneiro
no aquário escuro das nossas lembranças

preparas os sais e os aromas para o ritual do teu banho
tão logo os primeiros galos acordem a manhã
anunciando a minha morte
fazes muito bem
só peço-te não apagues do meu rosto as chuvas que caíram
pesadas em londres ou paris - não me lembro ao certo -
naquele ano de 1911 quando eu vivia de tocar violino nas gares
em troca de moedas para garantir miseráveis côdeas
de pão e uma pequena parte de vinho

ajeitas o trapézio no ponto mais alto que a tua imaginação convém
fazes muito bem
só peço-te para fechar os olhos quando eu cair estatelado no asfalto
depois da vigésima quinta pirueta
sem que nenhum aplauso me faça despertar

aí então aproxima-te do que de mim ficou e cobre o meu silêncio
com os sorrisos e as cinzas que juntaste
ao longo dos nossos quarenta e quatro últimos carnavais


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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil

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mais poemas do autor, aqui

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23/01/2010

SILÊNCIO INTACTO

Sobe até ao cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco,
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda, irmão mais novo dos insectos,
a linguagem perfumada das flores.

Albano Martins

com a devida vénia, de VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, edição da Imprensa Nacional Casa da Moeda, Fevereiro de 1990

19/01/2010

O INOMINÁVEL

Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.

Eugénio de Andrade

com a devida vénia, de Ofício de Paciência, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Março de 2002