13/01/2010

de "O Guardador de Rebanhos" - XLIX

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites.
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse na janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNADO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006

06/01/2010

CEMITÉRIO DO PRADO DO REPOUSO

Passeias por entre os jazigos
de mármore e de granito

polido. Embora prefiras os
cemitérios relvados procuras

em plena cidade aquele silêncio
que só existe no fundo das

grutas nunca antes visitadas
por humanos. A esse silêncio te

abandonas entorpecido pelo
cheiro das beladonas.

Jorge Sousa Braga

com a devida vénia, de PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2005

05/01/2010

FADO

Chegam desamparados a estas baías extensas.
E contudo, Rossio, por muito que lhes custe,
nada têm contra ti. Descem dos bairros,
abrem caminho, sentem a areia. Invertem
o percurso ao fim da tarde, o silêncio
acumulado, as normas secretas e restritas
que guiam de algum modo as suas vidas.

São criaturas fascinantes estes velhos,
conseguem transportar pesos enormes.

Vítor Nogueira

com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009

03/01/2010

Lourdes Castro, Rua da Olaria

O pardal do campo descobre muitos lugares para
             uma casa
a poucos metros de mim
mundos sobrepostos transitam, preenchem o
            silêncio
e para o ânimo deles
quem não se levantaria cedo?

A minha arte é uma espécie de pacto:
não distingo as áreas selvagens das cultivadas
e elas não distiguem a minha sombra
da minha luz

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009

01/01/2010

O SILÊNCIO

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

com a devida vénia, de POESIA, Fundação Eugénio de Andrade, Setembro de 2000

31/12/2009

Despedida

Palavras como gestos que apontam o percurso,
inervadas, rápidas, a subtrair ao silêncio.
Palavras que dessoldam segredos,
que desfazem a trama
espessa do medo.
Ligeiras como folhas,
aguçadas como lâminas,
gastos instrumentos
mas chamam a espera, a salvação.
Corrida breve de sílabas, universo
recomposto de lascas,
invólucro, fronteira,
de uma tarefa inacabada.
Mapa, espelho reclinado,
porta entreaberta de um sonho,
e nelas procurar a voz
que finalmente conduza
do nome ao corpo.
Hálito, grito, sussurro,
e nelas reencontrar a marca
leve, apenas o fragmento de um motivo
que ora detém e ora acompanha.
Palavras do regresso no adeus.

Elio Pecora

com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008

29/12/2009

UMA RELAÇÃO TERNA E TERRÍVEL

Em teu lugar, o vento
duro.
Urdido o silêncio
da pedra.
Onde a eclosão de um tão invisível
uso do poder? - diz-me.
No nosso exílio sempre em fuga?
Numa relação incongruente - terna e terrível?
Por um lado, a crueldade; por outro,
a fragilização da sua obcecada
fissura: o segredo oculto no que todos demasiado
conhecem - pó
tentando erguer-se de desabado muro
- do resto que restou.
Estragos mútuos - demolidores amores
por quem tão bem ou mal soubeste
de amor morrer
e sem pedir-me
ajuda.

Eduarda Chiote

com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, Maio de 2004