Palavras como gestos que apontam o percurso,
inervadas, rápidas, a subtrair ao silêncio.
Palavras que dessoldam segredos,
que desfazem a trama
espessa do medo.
Ligeiras como folhas,
aguçadas como lâminas,
gastos instrumentos
mas chamam a espera, a salvação.
Corrida breve de sílabas, universo
recomposto de lascas,
invólucro, fronteira,
de uma tarefa inacabada.
Mapa, espelho reclinado,
porta entreaberta de um sonho,
e nelas procurar a voz
que finalmente conduza
do nome ao corpo.
Hálito, grito, sussurro,
e nelas reencontrar a marca
leve, apenas o fragmento de um motivo
que ora detém e ora acompanha.
Palavras do regresso no adeus.
Elio Pecora
com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008
31/12/2009
29/12/2009
UMA RELAÇÃO TERNA E TERRÍVEL
Em teu lugar, o vento
duro.
Urdido o silêncio
da pedra.
Onde a eclosão de um tão invisível
uso do poder? - diz-me.
No nosso exílio sempre em fuga?
Numa relação incongruente - terna e terrível?
Por um lado, a crueldade; por outro,
a fragilização da sua obcecada
fissura: o segredo oculto no que todos demasiado
conhecem - pó
tentando erguer-se de desabado muro
- do resto que restou.
Estragos mútuos - demolidores amores
por quem tão bem ou mal soubeste
de amor morrer
e sem pedir-me
ajuda.
Eduarda Chiote
com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, Maio de 2004
duro.
Urdido o silêncio
da pedra.
Onde a eclosão de um tão invisível
uso do poder? - diz-me.
No nosso exílio sempre em fuga?
Numa relação incongruente - terna e terrível?
Por um lado, a crueldade; por outro,
a fragilização da sua obcecada
fissura: o segredo oculto no que todos demasiado
conhecem - pó
tentando erguer-se de desabado muro
- do resto que restou.
Estragos mútuos - demolidores amores
por quem tão bem ou mal soubeste
de amor morrer
e sem pedir-me
ajuda.
Eduarda Chiote
com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, Maio de 2004
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27/12/2009
Um som, um mais alto, só um
Um som, um mais alto, só um
vou ouvir no silêncio que não sabes
não de turista contando o feito
de andar de barco programado
em torno do que faz a multidão.
Para isso não me convides, ai não.
É um outro tom, mais alto, este que falo
não de túlipas, pulseiras, mercados.
Quero das cidades outros segredos
e respirar conforme à comoção
por todos os lugares de Amsterdão
ou qualquer um, qualquer outro
onde tudo passe em voo alto, raso
um cheiro, um perfil, a beleza ao acaso
Helga Moreira
com a devida vénia, de TUMULTO, &etc, Lisboa, Março de 2003
vou ouvir no silêncio que não sabes
não de turista contando o feito
de andar de barco programado
em torno do que faz a multidão.
Para isso não me convides, ai não.
É um outro tom, mais alto, este que falo
não de túlipas, pulseiras, mercados.
Quero das cidades outros segredos
e respirar conforme à comoção
por todos os lugares de Amsterdão
ou qualquer um, qualquer outro
onde tudo passe em voo alto, raso
um cheiro, um perfil, a beleza ao acaso
Helga Moreira
com a devida vénia, de TUMULTO, &etc, Lisboa, Março de 2003
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20/12/2009
ÁRIA
É belo o tempo de Inverno,
no silêncio, a lenha húmida
das maternas canções da chuva.
Na lentidão de Janeiro
fica mais longe a morte. As aves
habitam nos beirais
como príncipes destronados.
Inês Lourenço
com a devida vénia, de Um Quarto com Cidades ao Fundo (poesia reunida) 1980 - 2000, Quasi Edições, Novembro de 2000
no silêncio, a lenha húmida
das maternas canções da chuva.
Na lentidão de Janeiro
fica mais longe a morte. As aves
habitam nos beirais
como príncipes destronados.
Inês Lourenço
com a devida vénia, de Um Quarto com Cidades ao Fundo (poesia reunida) 1980 - 2000, Quasi Edições, Novembro de 2000
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18/12/2009
FLOR DESEJADA
Nas asas do vento, criei uma flor
cercada de desejos e aguardei,
obstinado, a Primavera.
Passada a época das chuvas, liberta
a memória do silêncio das palavras, um
sorriso cúmplice, inebriante, anuncia
discretamente um novo tempo,
táctil e cálido, rodeado de aromas
inesparados.
O fogo dos sentidos, Cibele, necessita,
como o vidro, mil paixões.
Arlindo Mota
com a devida autorização, de aqui
mais poemas do autor, aqui
cercada de desejos e aguardei,
obstinado, a Primavera.
Passada a época das chuvas, liberta
a memória do silêncio das palavras, um
sorriso cúmplice, inebriante, anuncia
discretamente um novo tempo,
táctil e cálido, rodeado de aromas
inesparados.
O fogo dos sentidos, Cibele, necessita,
como o vidro, mil paixões.
Arlindo Mota
com a devida autorização, de aqui
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Arlindo Mota
09/12/2009
A PENÚLTIMA CEIA
esta pálida luz do teu silêncio
habita os corredores da memória
vai cortando o tempo ao meio e vence o
velho era-uma-vez de toda a história
e tudo o que já fomos agora dói
feridas que não cicatrizam nunca
a maldição a caminhar adunca
esta traça que aos bocados nos corrói
e assim nos morrem todos os assuntos
tal como nós também morremos juntos
a ambição do nada é o que nos resta
nada nada nada mil vezes nada
provamos as sobras do que foi festa
até que cesse enfim a caminhada
Júlio Saraiva
__________________________
S. Paulo - Brasil
mais poemas do autor aqui
habita os corredores da memória
vai cortando o tempo ao meio e vence o
velho era-uma-vez de toda a história
e tudo o que já fomos agora dói
feridas que não cicatrizam nunca
a maldição a caminhar adunca
esta traça que aos bocados nos corrói
e assim nos morrem todos os assuntos
tal como nós também morremos juntos
a ambição do nada é o que nos resta
nada nada nada mil vezes nada
provamos as sobras do que foi festa
até que cesse enfim a caminhada
Júlio Saraiva
__________________________
S. Paulo - Brasil
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05/12/2009
Mulher com flor
Ponho o silêncio no lugar
da flor; e a haste que daí cresce
tem o verde que lhe dás
quando o teu braço
a prolonga.
Mas se a flor pousa
nos teus lábios, e o teu
riso a desperta, batem
as suas pétalas como asas
de borboleta.
E és tu que do teu leito
te soltas, descobrindo os seios
à luz da tarde.
Nuno Júdice
(Inéditos)
com a devida vénia, de Tudo menos Palavras, Antologia de literatura portuguesa contemporânea, Edições Colibri e P.E.N. Clube Português, Lisboa, Outubro de 2009
da flor; e a haste que daí cresce
tem o verde que lhe dás
quando o teu braço
a prolonga.
Mas se a flor pousa
nos teus lábios, e o teu
riso a desperta, batem
as suas pétalas como asas
de borboleta.
E és tu que do teu leito
te soltas, descobrindo os seios
à luz da tarde.
Nuno Júdice
(Inéditos)
com a devida vénia, de Tudo menos Palavras, Antologia de literatura portuguesa contemporânea, Edições Colibri e P.E.N. Clube Português, Lisboa, Outubro de 2009
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