01/12/2009

A chave na porta

estava a chave na porta
e a imagem flutuava na maçaneta.
uma nuvem me adentrou
tua prévia partida.
nas paredes vazias
as janelas cúmplices soltas
num chorrilho de batentes
lancinantes
lascavam vidros
ao vento sul.
senti o corte no ventre
esfriando as entranhas de silêncios
sugando o ser e a memória.

em bátegas fortes a chuva
desce-me pelos ombros
numa vaga de angústia
sacudindo a última viagem
do meu corpo numa lágrima
sem ancoradouro.

resisto... desisto...

Conceição Roque Silveira

retirado, com a devida autorização da autora, de aqui

29/11/2009

CALIGRAFIA

Papéis de seda
Imploram a luz da palavra
E os meus olhos acendem
Milhões de lamparinas
Opala
Zarcão
Carmim
Cores raras
Como rastro de estrelas.
Acende um poema
Na minha vida parca
Dedilha essa andaluz guitarra
Quando o silêncio for o ápice.

Um som, um rumor
De cascos alucinados
Um toque na madeira
Assim anunciada a palavra
Desenha emaranhado de letras
Fios de âmbar
Esquece sedas ao canto
Dedos de esmeralda
A mão fria
De escrever as dores
Na brancura do sal.
O olhar do tigre
O toque da ternura
A asa
Palavras são setas de estrelas
Cortando o céu.
Escultura forjada
Sob o látego da noite
Um insone poema,
Caligrafia de lua.

Sandra Fonseca

retirado, com a devida autorização da autora, de aqui

22/11/2009

ORAÇÃO

O vinho tinto do teu desejo.
O pão dourado da tua paz.
A água límpida do teu silêncio.
Amém.

Júlio Saraiva

retirado, com a devida autorização do autor, de aqui

07/11/2009

AUSÊNCIA

Quando a minha voz
se fizer
ausência, entenda o silêncio
como prova da verdade.


         Arrume as palavras deixadas
         entre folhas, faça frases
         e desordene os parágrafos.


A minha voz ausente
estará diante
do esforço. Concentre sua hora
na descoberta dos traços.


Risque as letras e deixe em branco
a parte inferior do silêncio.


Pedro Du Bois


(Poema inédito). Outros poemas do autor aqui

02/11/2009

SCRIPTOR - 1

uma janela abre-se sobre a mesa
enquanto a mão molda o verbo

ou tece
uma ave em chama
voando rente ao silêncio

Xavier Zarco

retirado, com a devida autorização do autor, de aqui

16/10/2009

VII

Lasso dos mistérios próximos
pus-me a escutar o silêncio
aquela flauta que ninguém toca
e só os poetas ouvem
no verde-bruma da tarde.

E com ternura aflita
senti subir de mim mesmo
a dor enfim nua,
tão alheia à terra,
tão subtil de fumo
- mas só minha, só minha! -
despida de mundo
em dor que não dói...

(Que bom! sofrer nas nuvens...)

José Gomes Ferreira

com a devida vénia, de VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA!, in Poesia. I, Portugália Editora, Outubro de 1969

12/10/2009

[Casimiro de Brito, do livro Arte da Respiração]

40

E subitamente uma pedra em flor: o silêncio.


Casimiro de Brito

com a devida vénia, de Arte da Respiração, Publicações  Dom Quixote, Lisboa, 1988