27 de abril de 2011

OS NÚMEROS DE PITÁGORAS

Amaste a proporção e calculaste
a harmonia do Oculto: reuniste
os deuses e os números, na arte
oblíqua que ensinaste. Assim a Pítia
ouviste e no silêncio te exilaste.

José Augusto Seabra

com a devida vénia, de Homenagem aos pré-socráticos (11 poemas), Edição Palavra em Mutação, 2004

16 de abril de 2011

POLIFEMOS

Foi então que vi dois cegos
à espera de um sinal.
Conquistados pelo joio,
não olhavam em redor.


Do mais novo pude ouvir:
"O silêncio de Deus
que se ouvia nos trigais,
ninguém sabe como foi."


Isolados pelo dardo
de Ninguém, duvidosos,
tropeçamos uns nos outros,
não damos com a porta.


José Miguel Silva


com a devida vénia, de ULISSES JÁ NÃO MORA AQUI, &etc, Março de 2002

9 de abril de 2011

simbiose

as palavras germinam música
a música depura o silêncio

o silêncio é um cristal
envolvendo a respiração do tempo

as palavras ardendo
evaporam o acre perfume
da raiz

a música subindo
faz explodir as corolas
do sublime

e o tempo dobra-se
como o último a saber
os signos do som

a ler toda a página
lavrada de sulcos e selos
seminais

Cláudio Lima

com a devida vénia, de ITINERÂNCIAS, Edição Opera Omnia, Guimarães, Outubro de 2010

2 de abril de 2011

[Mais incompreensível]

Mais incompreensível
Que a sombra
A luz diáfana
Ou penetrante
Que de onde em onde
O ser inteiro
Recebe

Essa luz nimba
De compaixão
A pergunta imensa
Ferida impossível
De jamais sarar

Ao longe o silêncio
Que reverbera
Maravilhoso
Inatingível

                                Londres, 24 de Dezembro 1996

Alberto Lacerda

com a devida vénia, de O PAJEM FORMIDÁVEL DOS INDÍCIOS, Assírio & Alvim, Junho 2010