30 de novembro de 2010

Insónia

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite -
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

(...)

Álvaro de Campos

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão/JL, Fevereiro de 2006

28 de novembro de 2010

[em espiral]

em espiral
nasce

do caos
o cosmos

do dervish
a dança

do silêncio
a melodia

ascende

Xavier Zarco

com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998

17 de novembro de 2010

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar

com a devida vénia de, Em alguma parte alguma, Ulisseia, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

16 de novembro de 2010

[quando a fome visitar]

quando a fome visitar
o teu corpo

e a sede se deitar
serenamente
no dorso dos teus lábios

e uma luz
ao fundo se anunciar
breve como brisa
na candura da sala

e uma estranha música
contaminar o silêncio
profundamente mergulhando
nos teus olhos

talvez o amor se explique

Xavier Zarco

copiado, com a devida autorização do autor, de aqui

13 de novembro de 2010

No reino da metáfora

Tudo é triste no reino da metáfora.
O vermelho e o negro rebentam por si sós
um vive da morte do outro
e ninguém sabe despedir-se
(navalha de ponta e mola
um diz mata o outro esfola):
ninguém sabe despedir-se
estamos juntos para a vida.
Alguém pode achar alguma graça a isto?

Oh que nos põe mais alegres
qualquer metáfora:
O arco-íris encontrou
o seu sustento
nas trevas do centro da terra
(não sei se isto chega a ser uma metáfora
a ser, posso murmurá-la)

A raiz, o centro da terra, é o silêncio.
Habitamos, no entanto, à superfície
isso dá frutos e ruído
rape-se o que resta do tacho.
O certo é que uma coisa morde a outra
então, de que nos queixamos?

(...)

Sérgio Godinho

com a devida vénia, de O SANGUE POR UM FIO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro 2009

7 de novembro de 2010

De "Sete Exercícios de Pura Circunstância"

5

Vou ver os barcos a Leça. Parto
para oeste, vivo, esqueço Kant,
Descartes, meu pai - mas que lá cante
a água junto ao cais. Farto

dos livros, ressuscito: longe, os graves
textos, teorias - testemunhos, vãos
escritos, tão longos, quando as mãos
são breves, tarde, e são vazias. Naves

múltiplas, de papel; simuladores
íntimos, do ser. E livre (ou gasto)
esqueço tais discursos, tais saberes

inúteis, a morte, e quantas dores
se tecem, no silêncio. Leve rasto
último, de luz: as ondas (se as leres).

Diogo Alcoforado

com a devida vénia, in TERRA: PORTO,  Edição Exercícios de Dizer, Porto, Maio de 1981

6 de novembro de 2010

[A razão é incerta, é assim]

A razão é incerta, é assim,
Vá-se lá saber porquê.
                              Todos eles
Se põem a andar
Um  dia destes.
           Chegam
Com as veias dilatadas,
A bem ou a mal
Lá estão,
            ficam
Não poucas vezes em vão,
Agitados e em busca.
                         Arremessando

Frases contra o silêncio,
Discutem com desdém, assim é que é,
Assim é que não é.

Até outra urna se encher,
Sob o céu vazio
Ouve-se um necrológio.

Durs Grünbein

com a devida vénia, de Aos Queridos Mortos, 33 Epitáfios, Editora Angelus Novus, Lda., Coimbra, 2003

1 de novembro de 2010

[Pondero a têmpera, a feição]

Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
                                         Cedo
ao mármore a insalubre
vocação do silêncio.

Albano Martins

com a devida vénia, de VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Fevereiro de 1990