28 de outubro de 2010

SUICÍDIO E PAIXÃO

Metáforas, porquê?
"A definição de um homem
não pertence ao homem"
tal como a do insecto escavador
ao pólen,
meus lábios sem diálogo, meu amuo
tão frágil,
tão menino!
Deixa sobre eles poisar o seio.
A morte.
Deixa, pois, e em silêncio,
a palavra infantil
cumprir
o seu destino.

Eduarda Chiote

com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, 2004 

20 de outubro de 2010

À MEMÓRIA DE MIGUEL-MANSO

nunca quis ser claro mas declarou, evitou
ser escuro mas encobriu

o atributo colocou quase sempre depois
do nome (assim: um perfume de rosas lentas
insistiu no silêncio da casa) mas

meu deus meu deus a sua obscuridade
era afinal curto-circuito

Miguel-Manso

com a devida vénia, de SANTO SUBITO, Edição do Autor, Lisboa, Março 2010

12 de outubro de 2010

[pássaros calmos]

pássaros calmos.

no campo onde habitaram as guerras
há só silêncio.
os mortos crepitam numa outra dimensão.

sangue, és um maestro de flores cansadas
mendigando às flautas
sopros de serenidade

este campo é um quintal denso
poético

onde pela manhã
os pássaros
convocam
a bruma.

Ondjaki

com a devida vénia, de DENTRO DE MIM FAZ SUL SEGUIDO DE ACTO SANGUÍNEO, Editorial Caminho - 2010

9 de outubro de 2010

OLHO O ANIMAL

nem sempre é fácil
olhar o animal
mesmo que ele te olhe
sem medo ou ódio
fá-lo tão fixamente
que parece desdenhar
o seu subtil segredo
parece ser melhor sentir
a evidência do mundo
que noite e dia ruidosamente
perfura e corrói
o silêncio da alma

Jean Follain

(trad. Jorge Sousa Braga)

com a devida vénia, de ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro 2005

7 de outubro de 2010

SEM OUTRO INTUITO

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava

com a devida vénia, de VULCÃO, Quetzal Editores, Lisboa/1995

5 de outubro de 2010

CAPELA DOS OSSOS

Junto à porta e ao sol excessivo
de Maio, um velado mendigo
informou-nos que tínhamos de virar
à direita. Depois, na capela, "uma voz"
nos conduziria. Ao vê-lo desdobrar
eloquentemente o boné, deixei cair
uma moeda com a efígie do rei de Espanha.

À direita, frágil negação da morte,
cresciam flores em desordem
e voltámos a pagar para ver
os ossos que nos esperam,
sobrepostos como os dias e as noites
que tão pouco vivemos.

A prometida "voz" não passava afinal
de uma gravação em várias línguas
para gáudio de turistas. E o fundo musical,
infelizmente, ficava demasiado aquém
de Zelenka, Charpentier ou Frei Manuel Cardoso.

Mas tudo preferimos ao silêncio, à certeza de que
os mortos nada têm a dizer aos mortos.

Manuel de Freitas

com a devida vénia, de A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, 2005

3 de outubro de 2010

[Como quem]

Como quem
no silêncio concebe
o espaço
para um filho

- assim te vejo, assim
te quero
e louvo
e invoco

e te perfilho.

Albano Martins

com a devida vénia, de TRÊS POEMAS DE AMOR SEGUIDOS DE LIVRO QUARTO, prefácio de Luís Carlos Adriano, Quasi Edições, Fevereiro de 2004