29/09/2010

LEGADO

Gosta do silêncio que esconde os livros e obrigará a redescobri-los nas
margens do esquecimento.

José Amaro Dionísio

com a devida vénia, de Telhados de Vidro, N.º 14 . Setembro . 2010

25/09/2010

OS SILÊNCIOS

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

Maria Teresa Horta

com a devida vénia, de Só de Amor, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2009

22/09/2010

ENGANO

Que engano, engodo, ingrato, esse do sentimento
Ao alto, ao fundo, ao invisível
Alvo.
Já podemos morrer,
A voz que sobe em silêncio pelos tubos da razão,
Frontal como o rosto dum órgão,
Transforma em catedral a capelinha pobre
Do lugarejo humilde
Onde a minha alma reza sem saber pensar.

Armando Silva Carvalho

com a devida vénia, de ANTHERO AREIA & ÁGUA, Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 2010

21/09/2010

LOS PECES

          para a Xana Leite


areia, conchas e uma gruta
onde se reflectia límpida
a vida, repetida à exaustão
que os cantava em espanhol
bebendo no rio. tentámos
tudo o que pudesse prendê-los
à água. nada, porém, senão
vidro seco e silêncio
nos devolveram, ingratos

os peixes.

Renata Correia Botelho

com a devida vénia, de small song, Averno, Setembro de 2010

18/09/2010

[São lágrimas quietas, ou é pólen,]

3.


São lágrimas quietas, ou é pólen,
nos seios as libélulas, o dia?
São limos as palavras pressentidas,
os barcos, as amarras libertadas.
A névoa se insinua à flor do barro,
as veias desnudadas do silêncio,
os pátios de levante estremunhado.
......................................................

Mário Cláudio

com a devida vénia, de Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga, Prefácio de José Carlos Seabra Pereira, Desenhos de Júlio Resende, arcádia, Edição Babel, Maio de 2010

14/09/2010

[no outro lado da voz desliza]

18.


no outro lado da voz desliza
a água.
é a minha mãe
que me vai ensinando
a forma ronda do burgau.

nas mãos, iguais às minhas,
vou colhendo
ecos no silêncio, quase.

José Félix

com a devida vénia, de Teoria do Esquecimento, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, Maio, 2009

12/09/2010

[Silêncio]

Silêncio:
as cigarras escutam
o canto das rochas

Matsuo Bashô

com a devida vénia, de O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, Antologia poética, Versões de Jorge de Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986

09/09/2010

PERCEPTORA

Catedrática
Ensina inglês e álgebra.

Oxford.

Colhe
folhinhas tenras, altas.
Casta, mas relativamente.

(Ama em silêncio um aluno elefante).

Nome vulgar: girafa.

Nicolás Guillén

com a devida vénia, de O GRANDE ZOO, Centelha, Coimbra, 1973

06/09/2010

A FESTA DO SILÊNCIO

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa

                                                          de Volante Verde, 1986

com a devida vénia, de O POETA NA RUA, Selecção, e Prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi Edições, Julho 2005