25 de agosto de 2010

Olhar

Entre o dia que morre
e a noite que vem
uma lágrima escorre
no silêncio de alguém

- silhueta que vi
e ainda me seduz
ao passar por aqui
como um raio de luz

cada vez mais perdido
do seu rosto de sol
agora adormecido
nesta sombra que engole

cada último passo
a caminho do nada
como se nenhum espaço
fosse a minha morada

Fernando Pinto do Amaral

com a devida vénia, de Poemas escolhidos (1990-2007), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2009

14 de agosto de 2010

Han Shan - na Tradução de António Graça Abreu - "156"

Habito a montanha,
ninguém me conhece.
Entre nuvens brancas,
o silêncio, sempre o silêncio.


Han Shan


com a devida vénia, de DiVersos, Poesia e Tradução: N.º15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé

4 de agosto de 2010

[A tinta preta que baila no papel]

A tinta preta que baila no papel
garante a eternidade do que empunha
o objecto dançarino e frio
(julgava eu um dia, ou simplesmente
fingia acreditar). A tinta
de qualquer cor e o papel
ou ferro onde se inscreva
passam voláteis como os dedos
cheios de intenções e como
o som do cuco três vezes repetido.

Ao silêncio seguinte ninguém sequer
responde, pois não sabe
ter havido um som, uma verdade, um antes.

Pedro Tamen

com a devida vénia, de Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000