29 de julho de 2010

Manual de escultura

13

o silêncio
entra nas fissuras da casa

interdito
é um deus de conveniência
que ilumina
os relâmpagos da memória
- esculturas
que se desenham nas paredes -
e, de sombras
se confundem com a voz clara
longínqua da árvore nua

é na lúdica
fala em construção que o cinzel
lavra o rosto
da emoção permanente, sacra
do segredo
que se atravessa na comunhão
do desejo

revela a pedra

José Félix

in manual de escultura

(retirado, com a devida autorização do autor, de Escritas)

28 de julho de 2010

OS GIRASSÓIS

Vós, girassóis dourados,
Intimamente votados à morte,
Vós humildes irmãs, num tal silêncio
Acaba o ano de Helian,
O do frio na montanha.

Então empalidece de beijos
A sua fonte ébria
No meio daquelas flores
Douradas de melancolia
O espírito rege-se
Pelas trevas do silêncio.

Georg Trakl

(tradução João Barrento)

com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2000

17 de julho de 2010

PRIMEIRO POEMA

               «Sem horizonte ou lua, sem vento
                           nem bandeira»
  
                            L. Von Maaske


A palavra, vida inteira, mata.
O seu silêncio não fala nem cala: ri.
Sem antes, nem depois, nem agora.
É o infalável que fala.
Não o ouças: ouve-o.
Oh, falar sem ouvir,
como ri o riso
pleno dos mortos,
os meus e os teus mortos
debaixo de nós!

                                              1991

Manuel António Pina

com a devida vénia, de NENHUMA PALAVRA E NENHUMA LEMBRANÇA, Assírio & Alvim, Setembro de 1999

1 de julho de 2010

Cultivo doméstico

O cheiro da menta
no canteiro improvisado
entrou depressa demais
nos meus pulmões.
O ar tornou-se um silêncio incómodo
- pouco e frio. Essas palavras,
que íamos agora ouvir, a apagarem-se
diante dos meus olhos. E a acenderem-se
logo depois, debaixo das tuas pálpebras.
Os néons substituíram toda a mobília
do quarto: já não a vejo.

Descobrimos a seguir os vapores
que se levantavam das minhas
mãos, até das chávenas vazias.
E calámo-nos.
Quase nada do que foi plantado
resistiu ao domínio da hortelã.
Os outros versos nunca chegaram a existir.

Margarida Ferra

com a devida vénia, de CURSO INTENSIVO DE JARDINAGEM, &etc, Maio de 2010