24 de junho de 2010

DAS FILOSOFIAS

Dos filósofos todos
do compêndio, faltou só um:
cego, lia nas trevas;
mudo, cantava em silêncio.
E ainda tinha ânimo
para atear incêndios.

Paulinho Assunção

com a devida vénia, de cidades escritas

19 de junho de 2010

18 de junho de 2010

No silêncio dos olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago

com a devida vénia, de Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Outubro de 1998

13 de junho de 2010

O SILÊNCIO É IMPORTANTE PARA O BEM-ESTAR DE TODOS

Na parede, sob o zodíaco chinês
a duas cores, o misterioso cortejo
dos dias: não se vê o princípio

nem o fim. Os azulejos reflectem
um movimento confuso e o cliente
do bigode grisalho, já quase bêbado

a meio da tarde, arrelia o patrão
com não sei que insucesso
do Benfica. Na toalha branca

uma nódoa de vinho, indecente
como sangue fresco num passeio
em plena rua. Há moscas presas

na vitrina e uma razão a menos
a cada instante - ainda posso
mudar a minha vida?

Rui Pires Cabral

com a devida vénia, de CAPITAIS DA SOLIDÃO, Edição Teatro de Vila Real, Outubro de 2006

5 de junho de 2010

recado para paulo silenciário

o que diria apolo
do insecto assim votivo
e mudo?
história, se a há, é do inexacto,
do regresso impossível aos silêncios
da quente vizinhança;
e talvez seja
irrespirável a beleza:
a cigarra de eunomo ao atalhar
com seu murmúrio doce
a corda que na cítara partira.
a cigarra de bronze repetiu-a?

Vasco Graça Moura

com a devida vénia, de Os Rostos Comunicantes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1984