31 de março de 2010

[Ficar]

Ficar
à escuta

À escuta
do silêncio

Adília Lopes

com a devida vénia, de LE VITRAIL LA NUIT
                                                         *
                                       A ÁRVORE CORTADA,
&etc, Fevereiro de 2006

28 de março de 2010

SIMULACRO

Um gesto pode ser
um simulacro apenas.
Como quando arrefece
e acendes a lareira
para dar sangue às brasas.
No halo
da chama há sempre
uma voz que cintila
e te agradece.
É isso que se chama
dar voz ao silêncio.

Albano Martins

com a devida vénia, de ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras Editores, S.A., Maio de 1999

20 de março de 2010

O silêncio

A morte dos sonhos e a solidão
são medidas e pesadas como todas
as minhas excreções, de 8 em 8 horas.
Neste breve parêntesis de químicos
entre a febre e as carências
que amparam o pensamento
cai sobre o dia uma luz sem ruído,
sem outro objectivo que o silêncio,
esse mapa do futuro isento da morte,
que me faz contemplar - Hoje começou a primavera.

Rui Miguel Ribeiro

com a devida vénia, de RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março de 2010

18 de março de 2010

AMOR FORTUITO

Seduziu. E levou
naquele rubro olhar
tudo o que neste coube
sem ter sido gozado.

Que súbita presença
de casual encontro
com gestos de silêncio
e quietude de assomo.

E depois? Um tumulto,
nada mais assumido:
o tremor esvaído
que não teve percurso.

António Salvado

com a devida vénia, de ESSA ESTÓRIA, Portugália Editora, Junho de 2008

16 de março de 2010

[Láudamo]

Láudamo, gota  a  gota  sobre mim. De
corpos   arrastados  para  um   silêncio
comum.  Rompido, a golpes de joelhos,
como  um  vidro desfeito  na  noite  de
um  bairro,  como  a  respiração de um
incenso.

Uma cortina que cai.

Gota   a   gota   sobre  mim,  clepsidra
invisível  a  destilar o  álcool  dos meus
olhos na ferida do mundo.

Vasco Gato

com a devida vénia, de Omertà, Quasi Edições, Março de 2007

14 de março de 2010

EM SUMA

Um a um foram saindo de cena
os companheiros. Partiam, com a tarde,
para fins empobrecidos,
na rota dos eleitos para filhos e despesas.
As noites faziam-se livrescas,
estendiam sobre mim o seu império
de silêncios e desfalques.

Entretanto, engrossava o meu diário
de rasuras, de cálculos moídos,
partilhado por verrinas e recados
sem resposta. Bebia o desalento
por canecas de latão, corria
as persianas. É muito pouca sorte.

Os versos, com o tempo, tornavam-se mais longos,
cresciam para trás, para fora
dos cadernos, ocupavam minha vida
tal a morte na semente de madeira.
Afeiçoava-me isso sim à solidão, cortava
o negativo dos afectos, protegido na cabeça
por um chapéu de feltro;
pois essas são as coisas e as coisas
que ontem nos pareciam boas
não existem.

José Miguel Silva

com a devida vénia, de VISTA PARA UM PÁTIO, seguido de DESORDEM, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Março de 2003

10 de março de 2010

[E assim a minha mão vai ao centro do mundo]

6.


E assim a minha mão vai ao centro do mundo
e o mundo fremente me responde.
Responde dadivoso a esta mão maltratada
de operário quase cego.
Não sei agradecer a mercê deste comércio
entre a mão e o mundo,
este rio de silêncio...

Pedro Tamen

com a devida vénia, de O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2010

6 de março de 2010

[vacilando]

Bêbado
o seu ombro
ilumina as esquinas

e duma ave nocturna
que o ultrapassa
o voo fosforece
a seu lado

em vez da lagosta de Nerval
arrasta em copo
pelo silêncio inquebrável

ninguém vê a santidade
desse halo de hálito.

Sebastião Alba

com a devida vénia, de UMA PEDRA AO LADO DA EVIDÊNCIA, Antologia Poética, Selecção, apresentação e notas de Vergílio Alberto Vieira, Campo das Letras - Editores, S.A., 2000