28 de fevereiro de 2010

há silêncios que nem supões
há uma idade em que os animais
que nos amam ou cremos que
nos amam ou queremos que
nunca nos perdoam o se
a retribuição do amor
ou o reenvio da solidão



há homens que suam fazem
a barba com as águas
das chuvas ininterruptas
lavam os olhos às lágrimas
contínuas acumuladas
e daí as mulheres os amam
daí as mães os esperam
daí só são ingénuos piegas
os homens que não amam



há gaivotas em chamas
despenhando-se no mar
agarradas ao seu cio
voraz viril voador
pois o amor não se diz
e só se faz o amor



Joaquim Castro Caldas



com a devida vénia, de , edições apalavrados

26 de fevereiro de 2010

ENGATE

No silêncio largo
- uma pérgula -

chuvisca
(míngua bem planejada)

um quase-que-sorriso.
Vem a resposta: um lóbulo

de frase, uma meia-palavra,
uma vírgula. Uma isca, enfim.

Os olhos, no entanto, largos,
não dão trégua.

Mais adiante, serão, talvez, o suor, a urtiga, o fêmur,
a língua, milhões de palavras, glândulas e tempestades.

Mas, antes, atam gestos
mínimos, manuelinos.

Eucanaã Ferraz

com a devida vénia, de Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007

18 de fevereiro de 2010

Sob epígrafe de Juan A. Olmedo

     Frequentó la escritura, rehizo muchos versos
        mas le faltó el dolor para ser un poeta.

        Juan A. Olmedo


uma guitarra acordara
por entre pétalas do fogo

ferida
tangia-se por dedos
de memórias antigas
como uma casa em ruínas
em que as pedras
fendem o silêncio

e um homem escrevia o poema
pleno de metáfora
como quem ergue
em talha dourada o sarcófago
das palavras sem música dentro

no entanto
uma guitarra acordara

Xavier Zarco

com a devida autorização, retirado de aqui

Ozias Filho - "génesis"

     ...Que as palavras forcem seu limite e eu, que as destruo em mim,
                       em mim as force e no seu absurdo me esbanje e grite...
                                        (Nauro Machado, do livro "Campo Sem Base")


génesis


e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem

Ozias Filho

com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005

15 de fevereiro de 2010

INFINITO SILÊNCIO

          houve
                  (há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas

      antes da luz

      a matéria da matéria

de onde tudo vem incessante e onde
             tudo se apaga
             eternamente

esse silêncio
          grita sob nossa vida
          e de ponta a ponta
          a atravessa
                           estridente

Ferreira Gullar

com a devida vénia, de Obra Poética, Quasi Edições, Outubro de 2003

7 de fevereiro de 2010

"ESTALACTITE - XXI"

esta poeira
lenta
hesita em regressar
ao chão
[o poema
sonha ainda
o arquétipo
do voo],
mas cai
e localiza
na cal
o ponto morto
que propaga
o silêncio

Carlos de Oliveira

com a devida vénia, de MICROPAISAGEM, Publicações Dom Quixote, Porto, Setembro de 1969

6 de fevereiro de 2010

Soneto de Eurydice

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Sophia de Mello Breyner Andresen

com a devida vénia, de CEM POEMAS DE SOPHIA, Selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Visão e JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Agosto de 2004

4 de fevereiro de 2010

AVISO (poema de Sylvia Beirute)














AVISO


se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.

Sylvia Beirute

inédito

com a devida autorização, retirado de aqui

[Só se o sol afundar existe a alba]

Só se o sol afundar existe a alba.
Só se houver horizontes nasce o dia.
Só quando é de noite e amanhece,
entre esterco e arames canta o galo.
E nesta fuga de experiência e tempo
só germinam lugares, rostos, datas,
se lembrá-los trouxer uma esperança.

Outra coisa te disse, em Rio Grande,
a árvore morta ao pé da corrente,
por terra para unir as duas margens?
E essa primavera de há um ano,
cheia de água e luz, não repetia
que temos de enterrar-nos para florir?

Cantava-o na represa o grilo oculto.
A flor mudava-o em fino cheiro.
Dizia-to na penumbra o pássaro:
sempre que algo acaba, algo desperta
e lança raízes num ser recôndito.
Sempre que algo finda, que alguém morre

e no silêncio te invade a fadiga,
teu ai rebelde reza a um Deus sem nome.
Deus que não é desculpa nem certeza.
Não é do tempo, mas do tempo é.
Arde escondido e descoberto foge,
na forja de dons e desgraças
te molda a golpes de martelo e fogo.

José Mateos

com a devida vénia, de A NÉVOA, tradução e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães, Averno, Maio de 2006

1 de fevereiro de 2010

RUÍDO

Sapateando na noite,
o comboio faz tã-tã
(assim o julgo).

Porém alguém a meu lado
diz que não consegue adormecer
por causa do trape-trape
das rodas nos carris.

Está visto: cada um ouve
o comboio como quer.

E afinal o comboio nada faz
senão um silêncio aterrador.
Nós é que lhe fazemos o ruído.

A. M. Pires Cabral

com a devida vénia, de QUE COMBOIO É ESTE, Edições Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005