30 de janeiro de 2010

[O profundo silêncio das flores]

O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o voo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda.
Vagueio por literaturas, leite
derramado, danço
a horas perdidas, sigo na música
a cor deixada pelo vento. Uma brisa
curta que apenas estremece
o coração. A manhã toma forma,
as árvores ainda não devoram
a sombra. O Mar Negro
solta as suas medusas na babugem
da praia. Olho da varanda
o horizonte: um dia sem surpresas,
um dia apenas a passar. Falta-me
um sonho, uma hélice pronta
a agitar as águas. Uma testemunha
capaz de modelar o inevitável.

                                                           Varna, 8.6.86

Egito Gonçalves

com a devida vénia, de E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, 1995

26 de janeiro de 2010

RITOS FINAIS

pintas camaleões nas folhas secas do meu jardim de outono
fazes muito bem
só peço-te não machuques o peixe-espada que não sabe mais
esgrimir porque o tornaste durante um século prisioneiro
no aquário escuro das nossas lembranças

preparas os sais e os aromas para o ritual do teu banho
tão logo os primeiros galos acordem a manhã
anunciando a minha morte
fazes muito bem
só peço-te não apagues do meu rosto as chuvas que caíram
pesadas em londres ou paris - não me lembro ao certo -
naquele ano de 1911 quando eu vivia de tocar violino nas gares
em troca de moedas para garantir miseráveis côdeas
de pão e uma pequena parte de vinho

ajeitas o trapézio no ponto mais alto que a tua imaginação convém
fazes muito bem
só peço-te para fechar os olhos quando eu cair estatelado no asfalto
depois da vigésima quinta pirueta
sem que nenhum aplauso me faça despertar

aí então aproxima-te do que de mim ficou e cobre o meu silêncio
com os sorrisos e as cinzas que juntaste
ao longo dos nossos quarenta e quatro últimos carnavais


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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil

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mais poemas do autor, aqui

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23 de janeiro de 2010

SILÊNCIO INTACTO

Sobe até ao cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco,
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda, irmão mais novo dos insectos,
a linguagem perfumada das flores.

Albano Martins

com a devida vénia, de VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, edição da Imprensa Nacional Casa da Moeda, Fevereiro de 1990

19 de janeiro de 2010

O INOMINÁVEL

Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.

Eugénio de Andrade

com a devida vénia, de Ofício de Paciência, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Março de 2002

18 de janeiro de 2010

O SOBRETUDO

Sobretudo o silêncio com gola de astracã
o sorriso entretela o sonho assertoado
sobretudo o peludo que se põe de manhã
e à noite é escovado.
Sobretudo o chumaço da cultura nos ombros
e a fazenda inglesa de meia estação.
Sobretudo o cuidado que ao despi-lo pomos
em estarmos vestidos como os outros são.

José Carlos Ary dos Santos

com a devida vénia, de OBRA POÉTICA, edições Avante!, Julho de 1999

17 de janeiro de 2010

[quando a erva repousar no corpo denso]

quando a erva repousar no corpo denso
do orvalho e habitar a madrugada
como estrela caída
que desflorara lúcida o ventre
do breu
e tuas mãos souberem do filho
que pare a mãe
a mãe de todas as palavras
e tua boca aberta em fogo a voz
sentir como sua
e o grito nela nado for silêncio
saberás do poema vagamundo
o que de todos os passos
as cinzas colhe

Xavier Zarco

16 de janeiro de 2010

ESMORECER

I

Vai

Vai

Vai

Verbo irritado
Curva de suspiro e barro

II

Rio que desboca agora
Carrega de mãos dadas
Dois bocados de silêncio

Não por saber que a fala
Fraco borbulhar de gênio
Tenta irromper na trova

Vão pensamento

Thiago Ponce de Moraes

com a devida vénia, de ANTOLOGIA DE POESIA BRASILEIRA DO INÍCIO DO TERCEIRO MILÉNIO dezoito poetas da novíssima geração (selecção e organização de Claudio Daniel), 7 Dias 6 Noites - Editores Unipessoal, Lda., V. N. Gaia, Fevereiro de 2008

14 de janeiro de 2010

[Noite de pedra]

Noite de pedra
cerração de muros
arames farpados
grades de ferro
cruzes de ferro
nas campas rasas
duma luz morta

E a lua os cornos da lua
uma baioneta calada

Noite de pedra noite forjada
- para que o silêncio esmague
o coração dos homens

Luís Veiga Leitão

com a devida vénia, de POESIA COMPLETA, Edições ASA, Porto, Setembro de 2005

13 de janeiro de 2010

de "O Guardador de Rebanhos" - XLIX

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites.
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse na janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNADO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006

6 de janeiro de 2010

CEMITÉRIO DO PRADO DO REPOUSO

Passeias por entre os jazigos
de mármore e de granito

polido. Embora prefiras os
cemitérios relvados procuras

em plena cidade aquele silêncio
que só existe no fundo das

grutas nunca antes visitadas
por humanos. A esse silêncio te

abandonas entorpecido pelo
cheiro das beladonas.

Jorge Sousa Braga

com a devida vénia, de PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2005

5 de janeiro de 2010

FADO

Chegam desamparados a estas baías extensas.
E contudo, Rossio, por muito que lhes custe,
nada têm contra ti. Descem dos bairros,
abrem caminho, sentem a areia. Invertem
o percurso ao fim da tarde, o silêncio
acumulado, as normas secretas e restritas
que guiam de algum modo as suas vidas.

São criaturas fascinantes estes velhos,
conseguem transportar pesos enormes.

Vítor Nogueira

com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009

3 de janeiro de 2010

Lourdes Castro, Rua da Olaria

O pardal do campo descobre muitos lugares para
             uma casa
a poucos metros de mim
mundos sobrepostos transitam, preenchem o
            silêncio
e para o ânimo deles
quem não se levantaria cedo?

A minha arte é uma espécie de pacto:
não distingo as áreas selvagens das cultivadas
e elas não distiguem a minha sombra
da minha luz

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009

1 de janeiro de 2010

O SILÊNCIO

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

com a devida vénia, de POESIA, Fundação Eugénio de Andrade, Setembro de 2000