24 de dezembro de 2010

Octavio Paz - "SILÊNCIO"

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que outra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz

com a devida vénia, de Antologia Poética [1935-1987], Organização e tradução de Luís Pignatelli, Círculo de Leitores, Março de 1991

18 de dezembro de 2010

O SILÊNCIO

Dos corpos esgotados que silêncio
tão apaziguador se levantava!

(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)

Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.

(Que apertados anéis nos braços nus!)

Mas o silêncio vinha desprendê-los.

David Mourão-Ferreira

com a devida vénia, de OBRA POÉTICA, 1948-1988, Editorial Presença, Lda., Lisboa, Maio, 1997

12 de dezembro de 2010

O silêncio

Das matérias invisíveis
o silêncio
é das que mais corrompem
a textura dos dias
e amedrontam
a imobilidade das pedras.

Sandra Costa

com a devida vénia, de Di Versos 8, Revista Semestral de Poesia e Tradução, Edições Sempre-em-Pé, Outono de 2004

2 de dezembro de 2010

[Música]

42.

Música
não há aqui mais que a que faço,
a que eu faço e desfaço
à boca do silêncio.
Enquanto lá muito em cima,
em não sei que esferas,
cantam uns anjos que não ouço
mas fazem retinir as minhas mãos.

Pedro Tamen

com a devida vénia, de O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Março de 2010

30 de novembro de 2010

Insónia

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite -
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo -;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

(...)

Álvaro de Campos

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão/JL, Fevereiro de 2006

28 de novembro de 2010

[em espiral]

em espiral
nasce

do caos
o cosmos

do dervish
a dança

do silêncio
a melodia

ascende

Xavier Zarco

com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998

17 de novembro de 2010

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar

com a devida vénia de, Em alguma parte alguma, Ulisseia, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

16 de novembro de 2010

[quando a fome visitar]

quando a fome visitar
o teu corpo

e a sede se deitar
serenamente
no dorso dos teus lábios

e uma luz
ao fundo se anunciar
breve como brisa
na candura da sala

e uma estranha música
contaminar o silêncio
profundamente mergulhando
nos teus olhos

talvez o amor se explique

Xavier Zarco

copiado, com a devida autorização do autor, de aqui

13 de novembro de 2010

No reino da metáfora

Tudo é triste no reino da metáfora.
O vermelho e o negro rebentam por si sós
um vive da morte do outro
e ninguém sabe despedir-se
(navalha de ponta e mola
um diz mata o outro esfola):
ninguém sabe despedir-se
estamos juntos para a vida.
Alguém pode achar alguma graça a isto?

Oh que nos põe mais alegres
qualquer metáfora:
O arco-íris encontrou
o seu sustento
nas trevas do centro da terra
(não sei se isto chega a ser uma metáfora
a ser, posso murmurá-la)

A raiz, o centro da terra, é o silêncio.
Habitamos, no entanto, à superfície
isso dá frutos e ruído
rape-se o que resta do tacho.
O certo é que uma coisa morde a outra
então, de que nos queixamos?

(...)

Sérgio Godinho

com a devida vénia, de O SANGUE POR UM FIO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro 2009

7 de novembro de 2010

De "Sete Exercícios de Pura Circunstância"

5

Vou ver os barcos a Leça. Parto
para oeste, vivo, esqueço Kant,
Descartes, meu pai - mas que lá cante
a água junto ao cais. Farto

dos livros, ressuscito: longe, os graves
textos, teorias - testemunhos, vãos
escritos, tão longos, quando as mãos
são breves, tarde, e são vazias. Naves

múltiplas, de papel; simuladores
íntimos, do ser. E livre (ou gasto)
esqueço tais discursos, tais saberes

inúteis, a morte, e quantas dores
se tecem, no silêncio. Leve rasto
último, de luz: as ondas (se as leres).

Diogo Alcoforado

com a devida vénia, in TERRA: PORTO,  Edição Exercícios de Dizer, Porto, Maio de 1981

6 de novembro de 2010

[A razão é incerta, é assim]

A razão é incerta, é assim,
Vá-se lá saber porquê.
                              Todos eles
Se põem a andar
Um  dia destes.
           Chegam
Com as veias dilatadas,
A bem ou a mal
Lá estão,
            ficam
Não poucas vezes em vão,
Agitados e em busca.
                         Arremessando

Frases contra o silêncio,
Discutem com desdém, assim é que é,
Assim é que não é.

Até outra urna se encher,
Sob o céu vazio
Ouve-se um necrológio.

Durs Grünbein

com a devida vénia, de Aos Queridos Mortos, 33 Epitáfios, Editora Angelus Novus, Lda., Coimbra, 2003

1 de novembro de 2010

[Pondero a têmpera, a feição]

Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
                                         Cedo
ao mármore a insalubre
vocação do silêncio.

Albano Martins

com a devida vénia, de VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Fevereiro de 1990

28 de outubro de 2010

SUICÍDIO E PAIXÃO

Metáforas, porquê?
"A definição de um homem
não pertence ao homem"
tal como a do insecto escavador
ao pólen,
meus lábios sem diálogo, meu amuo
tão frágil,
tão menino!
Deixa sobre eles poisar o seio.
A morte.
Deixa, pois, e em silêncio,
a palavra infantil
cumprir
o seu destino.

Eduarda Chiote

com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, 2004 

20 de outubro de 2010

À MEMÓRIA DE MIGUEL-MANSO

nunca quis ser claro mas declarou, evitou
ser escuro mas encobriu

o atributo colocou quase sempre depois
do nome (assim: um perfume de rosas lentas
insistiu no silêncio da casa) mas

meu deus meu deus a sua obscuridade
era afinal curto-circuito

Miguel-Manso

com a devida vénia, de SANTO SUBITO, Edição do Autor, Lisboa, Março 2010

12 de outubro de 2010

[pássaros calmos]

pássaros calmos.

no campo onde habitaram as guerras
há só silêncio.
os mortos crepitam numa outra dimensão.

sangue, és um maestro de flores cansadas
mendigando às flautas
sopros de serenidade

este campo é um quintal denso
poético

onde pela manhã
os pássaros
convocam
a bruma.

Ondjaki

com a devida vénia, de DENTRO DE MIM FAZ SUL SEGUIDO DE ACTO SANGUÍNEO, Editorial Caminho - 2010

9 de outubro de 2010

OLHO O ANIMAL

nem sempre é fácil
olhar o animal
mesmo que ele te olhe
sem medo ou ódio
fá-lo tão fixamente
que parece desdenhar
o seu subtil segredo
parece ser melhor sentir
a evidência do mundo
que noite e dia ruidosamente
perfura e corrói
o silêncio da alma

Jean Follain

(trad. Jorge Sousa Braga)

com a devida vénia, de ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro 2005

7 de outubro de 2010

SEM OUTRO INTUITO

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava

com a devida vénia, de VULCÃO, Quetzal Editores, Lisboa/1995

5 de outubro de 2010

CAPELA DOS OSSOS

Junto à porta e ao sol excessivo
de Maio, um velado mendigo
informou-nos que tínhamos de virar
à direita. Depois, na capela, "uma voz"
nos conduziria. Ao vê-lo desdobrar
eloquentemente o boné, deixei cair
uma moeda com a efígie do rei de Espanha.

À direita, frágil negação da morte,
cresciam flores em desordem
e voltámos a pagar para ver
os ossos que nos esperam,
sobrepostos como os dias e as noites
que tão pouco vivemos.

A prometida "voz" não passava afinal
de uma gravação em várias línguas
para gáudio de turistas. E o fundo musical,
infelizmente, ficava demasiado aquém
de Zelenka, Charpentier ou Frei Manuel Cardoso.

Mas tudo preferimos ao silêncio, à certeza de que
os mortos nada têm a dizer aos mortos.

Manuel de Freitas

com a devida vénia, de A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, 2005

3 de outubro de 2010

[Como quem]

Como quem
no silêncio concebe
o espaço
para um filho

- assim te vejo, assim
te quero
e louvo
e invoco

e te perfilho.

Albano Martins

com a devida vénia, de TRÊS POEMAS DE AMOR SEGUIDOS DE LIVRO QUARTO, prefácio de Luís Carlos Adriano, Quasi Edições, Fevereiro de 2004

29 de setembro de 2010

LEGADO

Gosta do silêncio que esconde os livros e obrigará a redescobri-los nas
margens do esquecimento.

José Amaro Dionísio

com a devida vénia, de Telhados de Vidro, N.º 14 . Setembro . 2010

25 de setembro de 2010

OS SILÊNCIOS

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

Maria Teresa Horta

com a devida vénia, de Só de Amor, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2009

22 de setembro de 2010

ENGANO

Que engano, engodo, ingrato, esse do sentimento
Ao alto, ao fundo, ao invisível
Alvo.
Já podemos morrer,
A voz que sobe em silêncio pelos tubos da razão,
Frontal como o rosto dum órgão,
Transforma em catedral a capelinha pobre
Do lugarejo humilde
Onde a minha alma reza sem saber pensar.

Armando Silva Carvalho

com a devida vénia, de ANTHERO AREIA & ÁGUA, Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 2010

21 de setembro de 2010

LOS PECES

          para a Xana Leite


areia, conchas e uma gruta
onde se reflectia límpida
a vida, repetida à exaustão
que os cantava em espanhol
bebendo no rio. tentámos
tudo o que pudesse prendê-los
à água. nada, porém, senão
vidro seco e silêncio
nos devolveram, ingratos

os peixes.

Renata Correia Botelho

com a devida vénia, de small song, Averno, Setembro de 2010

18 de setembro de 2010

[São lágrimas quietas, ou é pólen,]

3.


São lágrimas quietas, ou é pólen,
nos seios as libélulas, o dia?
São limos as palavras pressentidas,
os barcos, as amarras libertadas.
A névoa se insinua à flor do barro,
as veias desnudadas do silêncio,
os pátios de levante estremunhado.
......................................................

Mário Cláudio

com a devida vénia, de Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga, Prefácio de José Carlos Seabra Pereira, Desenhos de Júlio Resende, arcádia, Edição Babel, Maio de 2010

14 de setembro de 2010

[no outro lado da voz desliza]

18.


no outro lado da voz desliza
a água.
é a minha mãe
que me vai ensinando
a forma ronda do burgau.

nas mãos, iguais às minhas,
vou colhendo
ecos no silêncio, quase.

José Félix

com a devida vénia, de Teoria do Esquecimento, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, Maio, 2009

12 de setembro de 2010

[Silêncio]

Silêncio:
as cigarras escutam
o canto das rochas

Matsuo Bashô

com a devida vénia, de O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, Antologia poética, Versões de Jorge de Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986

9 de setembro de 2010

PERCEPTORA

Catedrática
Ensina inglês e álgebra.

Oxford.

Colhe
folhinhas tenras, altas.
Casta, mas relativamente.

(Ama em silêncio um aluno elefante).

Nome vulgar: girafa.

Nicolás Guillén

com a devida vénia, de O GRANDE ZOO, Centelha, Coimbra, 1973

6 de setembro de 2010

A FESTA DO SILÊNCIO

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa

                                                          de Volante Verde, 1986

com a devida vénia, de O POETA NA RUA, Selecção, e Prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi Edições, Julho 2005

25 de agosto de 2010

Olhar

Entre o dia que morre
e a noite que vem
uma lágrima escorre
no silêncio de alguém

- silhueta que vi
e ainda me seduz
ao passar por aqui
como um raio de luz

cada vez mais perdido
do seu rosto de sol
agora adormecido
nesta sombra que engole

cada último passo
a caminho do nada
como se nenhum espaço
fosse a minha morada

Fernando Pinto do Amaral

com a devida vénia, de Poemas escolhidos (1990-2007), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2009

14 de agosto de 2010

Han Shan - na Tradução de António Graça Abreu - "156"

Habito a montanha,
ninguém me conhece.
Entre nuvens brancas,
o silêncio, sempre o silêncio.


Han Shan


com a devida vénia, de DiVersos, Poesia e Tradução: N.º15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé

4 de agosto de 2010

[A tinta preta que baila no papel]

A tinta preta que baila no papel
garante a eternidade do que empunha
o objecto dançarino e frio
(julgava eu um dia, ou simplesmente
fingia acreditar). A tinta
de qualquer cor e o papel
ou ferro onde se inscreva
passam voláteis como os dedos
cheios de intenções e como
o som do cuco três vezes repetido.

Ao silêncio seguinte ninguém sequer
responde, pois não sabe
ter havido um som, uma verdade, um antes.

Pedro Tamen

com a devida vénia, de Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000

29 de julho de 2010

Manual de escultura

13

o silêncio
entra nas fissuras da casa

interdito
é um deus de conveniência
que ilumina
os relâmpagos da memória
- esculturas
que se desenham nas paredes -
e, de sombras
se confundem com a voz clara
longínqua da árvore nua

é na lúdica
fala em construção que o cinzel
lavra o rosto
da emoção permanente, sacra
do segredo
que se atravessa na comunhão
do desejo

revela a pedra

José Félix

in manual de escultura

(retirado, com a devida autorização do autor, de Escritas)

28 de julho de 2010

OS GIRASSÓIS

Vós, girassóis dourados,
Intimamente votados à morte,
Vós humildes irmãs, num tal silêncio
Acaba o ano de Helian,
O do frio na montanha.

Então empalidece de beijos
A sua fonte ébria
No meio daquelas flores
Douradas de melancolia
O espírito rege-se
Pelas trevas do silêncio.

Georg Trakl

(tradução João Barrento)

com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2000

17 de julho de 2010

PRIMEIRO POEMA

               «Sem horizonte ou lua, sem vento
                           nem bandeira»
  
                            L. Von Maaske


A palavra, vida inteira, mata.
O seu silêncio não fala nem cala: ri.
Sem antes, nem depois, nem agora.
É o infalável que fala.
Não o ouças: ouve-o.
Oh, falar sem ouvir,
como ri o riso
pleno dos mortos,
os meus e os teus mortos
debaixo de nós!

                                              1991

Manuel António Pina

com a devida vénia, de NENHUMA PALAVRA E NENHUMA LEMBRANÇA, Assírio & Alvim, Setembro de 1999

1 de julho de 2010

Cultivo doméstico

O cheiro da menta
no canteiro improvisado
entrou depressa demais
nos meus pulmões.
O ar tornou-se um silêncio incómodo
- pouco e frio. Essas palavras,
que íamos agora ouvir, a apagarem-se
diante dos meus olhos. E a acenderem-se
logo depois, debaixo das tuas pálpebras.
Os néons substituíram toda a mobília
do quarto: já não a vejo.

Descobrimos a seguir os vapores
que se levantavam das minhas
mãos, até das chávenas vazias.
E calámo-nos.
Quase nada do que foi plantado
resistiu ao domínio da hortelã.
Os outros versos nunca chegaram a existir.

Margarida Ferra

com a devida vénia, de CURSO INTENSIVO DE JARDINAGEM, &etc, Maio de 2010

24 de junho de 2010

DAS FILOSOFIAS

Dos filósofos todos
do compêndio, faltou só um:
cego, lia nas trevas;
mudo, cantava em silêncio.
E ainda tinha ânimo
para atear incêndios.

Paulinho Assunção

com a devida vénia, de cidades escritas

19 de junho de 2010

18 de junho de 2010

No silêncio dos olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago

com a devida vénia, de Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Outubro de 1998

13 de junho de 2010

O SILÊNCIO É IMPORTANTE PARA O BEM-ESTAR DE TODOS

Na parede, sob o zodíaco chinês
a duas cores, o misterioso cortejo
dos dias: não se vê o princípio

nem o fim. Os azulejos reflectem
um movimento confuso e o cliente
do bigode grisalho, já quase bêbado

a meio da tarde, arrelia o patrão
com não sei que insucesso
do Benfica. Na toalha branca

uma nódoa de vinho, indecente
como sangue fresco num passeio
em plena rua. Há moscas presas

na vitrina e uma razão a menos
a cada instante - ainda posso
mudar a minha vida?

Rui Pires Cabral

com a devida vénia, de CAPITAIS DA SOLIDÃO, Edição Teatro de Vila Real, Outubro de 2006

5 de junho de 2010

recado para paulo silenciário

o que diria apolo
do insecto assim votivo
e mudo?
história, se a há, é do inexacto,
do regresso impossível aos silêncios
da quente vizinhança;
e talvez seja
irrespirável a beleza:
a cigarra de eunomo ao atalhar
com seu murmúrio doce
a corda que na cítara partira.
a cigarra de bronze repetiu-a?

Vasco Graça Moura

com a devida vénia, de Os Rostos Comunicantes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1984

20 de maio de 2010

... dóceis como ópio

não me negues o olhar
agora que já não te consigo ver
os sentidos perderam-se na boca do inferno
na língua de cadáveres esfomeados
penosamente, dóceis como ópio
não rasgues o céu que não te pertence
no brilho que refutas com inglórias
de tudo, que já não te é semelhante,
guarda o fato preto, abutre!
encharca-o de naftalina
quando eu morrer serei as cinzas da tua cegueira,
na garganta do meu silêncio guardarei
os nós do arame farpado dos teus gritos

Conceição Bernardino

mais poemas da autora, aqui

10 de maio de 2010

O FOTÓGRAFO

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era o carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski - o seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta do mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros

com a devida vénia, de ENSAIOS FOTOGRÁFICOS, Editora Record, Rio de Janeiro * São Paulo, 2000

8 de maio de 2010

RICOCHETE

Que margens têm os rios
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro de nós?

Que sereia é o poente,
metade não sei de quê
a pentear-se com o pente
do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
de estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
um corpo à alma que é?

Natália Correia

com a devida vénia, de AS MAÇÃS DE ORESTES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1970

2 de maio de 2010

Na Biblioteca

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente
                                                               [tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas  em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

Manuel António Pina

com a devida vénia, de CUIDADOS INTENSIVOS, Edições Afrontamento, Porto, 1994

17 de abril de 2010

O SILÊNCIO

É cada vez mais difícil surpreendê-lo. Ele defende-se (ou
seremos nós que nos defendemos dele?), refugia-se  em
lugares cada vez   mais afastados, inóspitos  por  vezes:
pântanos, grutas abandonadas.



Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio. Desde
o ácer até à vulgar tradescância. Mas  quem  melhor  se
adapta  são, sem dúvida, os  miosótis. Depois  de alguns
minutos  em silêncio  já  não  te  consegues  mexer, com
receio de os pisares.

Jorge de Sousa Braga

com a devida vénia, de O Poeta Nu, Fenda Edições, Lisboa, 1999

8 de abril de 2010

apocalipse

é preciso
implodir a palavra

desconstruir
o edifício

libertar
o silêncio

Ozias Filho

com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005

1 de abril de 2010

OUTRO LUGAR

A verdade pertence aos gestos
ao menor dos nossos gestos
antes de chegarem palavras que nos socorram
às vezes é a verdade de um amor

Escassos propósitos as palavras
para o abalo da terra
em que se tornou de repente
a nossa vida

Um sofrimento não nos larga
a manhã parece-se estranhamente
com outro lugar
saberemos então que significam
os intervalos do silêncio
onde o silêncio é maior

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de DE IGUAL PARA IGUAL, Assírio & Alvim, Março de 2001

31 de março de 2010

[Ficar]

Ficar
à escuta

À escuta
do silêncio

Adília Lopes

com a devida vénia, de LE VITRAIL LA NUIT
                                                         *
                                       A ÁRVORE CORTADA,
&etc, Fevereiro de 2006

28 de março de 2010

SIMULACRO

Um gesto pode ser
um simulacro apenas.
Como quando arrefece
e acendes a lareira
para dar sangue às brasas.
No halo
da chama há sempre
uma voz que cintila
e te agradece.
É isso que se chama
dar voz ao silêncio.

Albano Martins

com a devida vénia, de ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras Editores, S.A., Maio de 1999

20 de março de 2010

O silêncio

A morte dos sonhos e a solidão
são medidas e pesadas como todas
as minhas excreções, de 8 em 8 horas.
Neste breve parêntesis de químicos
entre a febre e as carências
que amparam o pensamento
cai sobre o dia uma luz sem ruído,
sem outro objectivo que o silêncio,
esse mapa do futuro isento da morte,
que me faz contemplar - Hoje começou a primavera.

Rui Miguel Ribeiro

com a devida vénia, de RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março de 2010

18 de março de 2010

AMOR FORTUITO

Seduziu. E levou
naquele rubro olhar
tudo o que neste coube
sem ter sido gozado.

Que súbita presença
de casual encontro
com gestos de silêncio
e quietude de assomo.

E depois? Um tumulto,
nada mais assumido:
o tremor esvaído
que não teve percurso.

António Salvado

com a devida vénia, de ESSA ESTÓRIA, Portugália Editora, Junho de 2008

16 de março de 2010

[Láudamo]

Láudamo, gota  a  gota  sobre mim. De
corpos   arrastados  para  um   silêncio
comum.  Rompido, a golpes de joelhos,
como  um  vidro desfeito  na  noite  de
um  bairro,  como  a  respiração de um
incenso.

Uma cortina que cai.

Gota   a   gota   sobre  mim,  clepsidra
invisível  a  destilar o  álcool  dos meus
olhos na ferida do mundo.

Vasco Gato

com a devida vénia, de Omertà, Quasi Edições, Março de 2007

14 de março de 2010

EM SUMA

Um a um foram saindo de cena
os companheiros. Partiam, com a tarde,
para fins empobrecidos,
na rota dos eleitos para filhos e despesas.
As noites faziam-se livrescas,
estendiam sobre mim o seu império
de silêncios e desfalques.

Entretanto, engrossava o meu diário
de rasuras, de cálculos moídos,
partilhado por verrinas e recados
sem resposta. Bebia o desalento
por canecas de latão, corria
as persianas. É muito pouca sorte.

Os versos, com o tempo, tornavam-se mais longos,
cresciam para trás, para fora
dos cadernos, ocupavam minha vida
tal a morte na semente de madeira.
Afeiçoava-me isso sim à solidão, cortava
o negativo dos afectos, protegido na cabeça
por um chapéu de feltro;
pois essas são as coisas e as coisas
que ontem nos pareciam boas
não existem.

José Miguel Silva

com a devida vénia, de VISTA PARA UM PÁTIO, seguido de DESORDEM, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Março de 2003

10 de março de 2010

[E assim a minha mão vai ao centro do mundo]

6.


E assim a minha mão vai ao centro do mundo
e o mundo fremente me responde.
Responde dadivoso a esta mão maltratada
de operário quase cego.
Não sei agradecer a mercê deste comércio
entre a mão e o mundo,
este rio de silêncio...

Pedro Tamen

com a devida vénia, de O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2010

6 de março de 2010

[vacilando]

Bêbado
o seu ombro
ilumina as esquinas

e duma ave nocturna
que o ultrapassa
o voo fosforece
a seu lado

em vez da lagosta de Nerval
arrasta em copo
pelo silêncio inquebrável

ninguém vê a santidade
desse halo de hálito.

Sebastião Alba

com a devida vénia, de UMA PEDRA AO LADO DA EVIDÊNCIA, Antologia Poética, Selecção, apresentação e notas de Vergílio Alberto Vieira, Campo das Letras - Editores, S.A., 2000

28 de fevereiro de 2010

há silêncios que nem supões
há uma idade em que os animais
que nos amam ou cremos que
nos amam ou queremos que
nunca nos perdoam o se
a retribuição do amor
ou o reenvio da solidão



há homens que suam fazem
a barba com as águas
das chuvas ininterruptas
lavam os olhos às lágrimas
contínuas acumuladas
e daí as mulheres os amam
daí as mães os esperam
daí só são ingénuos piegas
os homens que não amam



há gaivotas em chamas
despenhando-se no mar
agarradas ao seu cio
voraz viril voador
pois o amor não se diz
e só se faz o amor



Joaquim Castro Caldas



com a devida vénia, de , edições apalavrados

26 de fevereiro de 2010

ENGATE

No silêncio largo
- uma pérgula -

chuvisca
(míngua bem planejada)

um quase-que-sorriso.
Vem a resposta: um lóbulo

de frase, uma meia-palavra,
uma vírgula. Uma isca, enfim.

Os olhos, no entanto, largos,
não dão trégua.

Mais adiante, serão, talvez, o suor, a urtiga, o fêmur,
a língua, milhões de palavras, glândulas e tempestades.

Mas, antes, atam gestos
mínimos, manuelinos.

Eucanaã Ferraz

com a devida vénia, de Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007

18 de fevereiro de 2010

Sob epígrafe de Juan A. Olmedo

     Frequentó la escritura, rehizo muchos versos
        mas le faltó el dolor para ser un poeta.

        Juan A. Olmedo


uma guitarra acordara
por entre pétalas do fogo

ferida
tangia-se por dedos
de memórias antigas
como uma casa em ruínas
em que as pedras
fendem o silêncio

e um homem escrevia o poema
pleno de metáfora
como quem ergue
em talha dourada o sarcófago
das palavras sem música dentro

no entanto
uma guitarra acordara

Xavier Zarco

com a devida autorização, retirado de aqui

Ozias Filho - "génesis"

     ...Que as palavras forcem seu limite e eu, que as destruo em mim,
                       em mim as force e no seu absurdo me esbanje e grite...
                                        (Nauro Machado, do livro "Campo Sem Base")


génesis


e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem

Ozias Filho

com a devida vénia, de Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005

15 de fevereiro de 2010

INFINITO SILÊNCIO

          houve
                  (há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas

      antes da luz

      a matéria da matéria

de onde tudo vem incessante e onde
             tudo se apaga
             eternamente

esse silêncio
          grita sob nossa vida
          e de ponta a ponta
          a atravessa
                           estridente

Ferreira Gullar

com a devida vénia, de Obra Poética, Quasi Edições, Outubro de 2003

7 de fevereiro de 2010

"ESTALACTITE - XXI"

esta poeira
lenta
hesita em regressar
ao chão
[o poema
sonha ainda
o arquétipo
do voo],
mas cai
e localiza
na cal
o ponto morto
que propaga
o silêncio

Carlos de Oliveira

com a devida vénia, de MICROPAISAGEM, Publicações Dom Quixote, Porto, Setembro de 1969

6 de fevereiro de 2010

Soneto de Eurydice

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Sophia de Mello Breyner Andresen

com a devida vénia, de CEM POEMAS DE SOPHIA, Selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Visão e JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Agosto de 2004

4 de fevereiro de 2010

AVISO (poema de Sylvia Beirute)














AVISO


se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.

Sylvia Beirute

inédito

com a devida autorização, retirado de aqui

[Só se o sol afundar existe a alba]

Só se o sol afundar existe a alba.
Só se houver horizontes nasce o dia.
Só quando é de noite e amanhece,
entre esterco e arames canta o galo.
E nesta fuga de experiência e tempo
só germinam lugares, rostos, datas,
se lembrá-los trouxer uma esperança.

Outra coisa te disse, em Rio Grande,
a árvore morta ao pé da corrente,
por terra para unir as duas margens?
E essa primavera de há um ano,
cheia de água e luz, não repetia
que temos de enterrar-nos para florir?

Cantava-o na represa o grilo oculto.
A flor mudava-o em fino cheiro.
Dizia-to na penumbra o pássaro:
sempre que algo acaba, algo desperta
e lança raízes num ser recôndito.
Sempre que algo finda, que alguém morre

e no silêncio te invade a fadiga,
teu ai rebelde reza a um Deus sem nome.
Deus que não é desculpa nem certeza.
Não é do tempo, mas do tempo é.
Arde escondido e descoberto foge,
na forja de dons e desgraças
te molda a golpes de martelo e fogo.

José Mateos

com a devida vénia, de A NÉVOA, tradução e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães, Averno, Maio de 2006

1 de fevereiro de 2010

RUÍDO

Sapateando na noite,
o comboio faz tã-tã
(assim o julgo).

Porém alguém a meu lado
diz que não consegue adormecer
por causa do trape-trape
das rodas nos carris.

Está visto: cada um ouve
o comboio como quer.

E afinal o comboio nada faz
senão um silêncio aterrador.
Nós é que lhe fazemos o ruído.

A. M. Pires Cabral

com a devida vénia, de QUE COMBOIO É ESTE, Edições Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005

30 de janeiro de 2010

[O profundo silêncio das flores]

O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o voo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda.
Vagueio por literaturas, leite
derramado, danço
a horas perdidas, sigo na música
a cor deixada pelo vento. Uma brisa
curta que apenas estremece
o coração. A manhã toma forma,
as árvores ainda não devoram
a sombra. O Mar Negro
solta as suas medusas na babugem
da praia. Olho da varanda
o horizonte: um dia sem surpresas,
um dia apenas a passar. Falta-me
um sonho, uma hélice pronta
a agitar as águas. Uma testemunha
capaz de modelar o inevitável.

                                                           Varna, 8.6.86

Egito Gonçalves

com a devida vénia, de E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, 1995