31/12/2009

Despedida

Palavras como gestos que apontam o percurso,
inervadas, rápidas, a subtrair ao silêncio.
Palavras que dessoldam segredos,
que desfazem a trama
espessa do medo.
Ligeiras como folhas,
aguçadas como lâminas,
gastos instrumentos
mas chamam a espera, a salvação.
Corrida breve de sílabas, universo
recomposto de lascas,
invólucro, fronteira,
de uma tarefa inacabada.
Mapa, espelho reclinado,
porta entreaberta de um sonho,
e nelas procurar a voz
que finalmente conduza
do nome ao corpo.
Hálito, grito, sussurro,
e nelas reencontrar a marca
leve, apenas o fragmento de um motivo
que ora detém e ora acompanha.
Palavras do regresso no adeus.

Elio Pecora

com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008

29/12/2009

UMA RELAÇÃO TERNA E TERRÍVEL

Em teu lugar, o vento
duro.
Urdido o silêncio
da pedra.
Onde a eclosão de um tão invisível
uso do poder? - diz-me.
No nosso exílio sempre em fuga?
Numa relação incongruente - terna e terrível?
Por um lado, a crueldade; por outro,
a fragilização da sua obcecada
fissura: o segredo oculto no que todos demasiado
conhecem - pó
tentando erguer-se de desabado muro
- do resto que restou.
Estragos mútuos - demolidores amores
por quem tão bem ou mal soubeste
de amor morrer
e sem pedir-me
ajuda.

Eduarda Chiote

com a devida vénia, de NÃO ME MORRAS, &etc, Lisboa, Maio de 2004

27/12/2009

Um som, um mais alto, só um

Um som, um mais alto, só um
vou ouvir no silêncio que não sabes
não de turista contando o feito

de andar de barco programado
em torno do que faz a multidão.
Para isso não me convides, ai não.
É um outro tom, mais alto, este que falo

não de túlipas, pulseiras, mercados.
Quero das cidades outros segredos
e respirar conforme à comoção
por todos os lugares de Amsterdão

ou qualquer um, qualquer outro
onde tudo passe em voo alto, raso
um cheiro, um perfil, a beleza ao acaso

Helga Moreira

com a devida vénia, de TUMULTO, &etc, Lisboa, Março de 2003

20/12/2009

ÁRIA

É belo o tempo de Inverno,
no silêncio, a lenha húmida
das maternas canções da chuva.
Na lentidão de Janeiro
fica mais longe a morte. As aves
habitam nos beirais
como príncipes destronados.

Inês Lourenço

com a devida vénia, de Um Quarto com Cidades ao Fundo (poesia reunida) 1980 - 2000, Quasi Edições, Novembro de 2000

18/12/2009

FLOR DESEJADA

Nas asas do vento, criei uma flor
cercada de desejos e aguardei,
obstinado, a Primavera.

Passada a época das chuvas, liberta
a memória do silêncio das palavras, um
sorriso cúmplice, inebriante, anuncia
discretamente um novo tempo,
táctil e cálido, rodeado de aromas
inesparados.

O fogo dos sentidos, Cibele, necessita,
como o vidro, mil paixões.

Arlindo Mota

com a devida autorização, de aqui
mais poemas do autor, aqui

09/12/2009

A PENÚLTIMA CEIA

esta pálida luz do teu silêncio
habita os corredores da memória
vai cortando o tempo ao meio e vence o
velho era-uma-vez de toda a história

e tudo o que já fomos agora dói
feridas que não cicatrizam nunca
a maldição a caminhar adunca
esta traça que aos bocados nos corrói

e assim nos morrem todos os assuntos
tal como nós também morremos juntos
a ambição do nada é o que nos resta

nada nada nada mil vezes nada
provamos as sobras do que foi festa
até que cesse enfim a caminhada

Júlio Saraiva
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S. Paulo - Brasil


mais poemas do autor aqui

05/12/2009

Mulher com flor

Ponho o silêncio no lugar
da flor; e a haste que daí cresce
tem o verde que lhe dás
quando o teu braço
a prolonga.

Mas se a flor pousa
nos teus lábios, e o teu
riso a desperta, batem
as suas pétalas como asas
de borboleta.

E és tu que do teu leito
te soltas, descobrindo os seios
à luz da tarde.

Nuno Júdice

(Inéditos)


com a devida vénia, de Tudo menos Palavras, Antologia de literatura portuguesa contemporânea, Edições Colibri e P.E.N. Clube Português, Lisboa, Outubro de 2009

01/12/2009

A chave na porta

estava a chave na porta
e a imagem flutuava na maçaneta.
uma nuvem me adentrou
tua prévia partida.
nas paredes vazias
as janelas cúmplices soltas
num chorrilho de batentes
lancinantes
lascavam vidros
ao vento sul.
senti o corte no ventre
esfriando as entranhas de silêncios
sugando o ser e a memória.

em bátegas fortes a chuva
desce-me pelos ombros
numa vaga de angústia
sacudindo a última viagem
do meu corpo numa lágrima
sem ancoradouro.

resisto... desisto...

Conceição Roque Silveira

retirado, com a devida autorização da autora, de aqui