16 de outubro de 2009

VII

Lasso dos mistérios próximos
pus-me a escutar o silêncio
aquela flauta que ninguém toca
e só os poetas ouvem
no verde-bruma da tarde.

E com ternura aflita
senti subir de mim mesmo
a dor enfim nua,
tão alheia à terra,
tão subtil de fumo
- mas só minha, só minha! -
despida de mundo
em dor que não dói...

(Que bom! sofrer nas nuvens...)

José Gomes Ferreira

com a devida vénia, de VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA!, in Poesia. I, Portugália Editora, Outubro de 1969

12 de outubro de 2009

[Casimiro de Brito, do livro Arte da Respiração]

40

E subitamente uma pedra em flor: o silêncio.


Casimiro de Brito

com a devida vénia, de Arte da Respiração, Publicações  Dom Quixote, Lisboa, 1988

8 de outubro de 2009

[a incandescência dos arbustos cobre-te]

a incandescência dos arbustos cobre-te
de inércia e de silêncio - a vida
simulada por uma respiração de veias e
de nervos tensos que atam a memória
das coisas ao tempo - labirinto de corpos
esvoaçando na lentidão da noite - os dedos


escavam uma saída no sonho escuro
evades-te
através da linguagem possível - foges
à desolação do século


deserto onde as refeições de louva-a-deus
não curam a melancolia queimada pelo desejo
nem a alegria fúnebre do coração




Al Berto


com a devida vénia, de Revista Limiar, nº. 9, in O Último Coração do Sonho, Quasi Edições, Fevereiro de 2000

3 de outubro de 2009

EXÍLIO

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades




Sophia de Mello Breyner


com a devida vénia, de GRADES, Publicações Dom Quixote, Novembro de 1970